E o pioneiro da revascularização de miocárdio é…

Em 09 de maio de 1967, na Cleveland Clinic, René Favaloro, ao realizar a primeira revascularização do miocárdio (RM), ficou conhecido por ter “revolucionado o tratamento da doença isquêmica do coração”, fazendo mais de 1.000 cirurgias dentro um ano e sempre aperfeiçoando sua técnica.

Porém, René Favaloro não foi o verdadeiro primeiro cirurgião. A RM, assim como a medicina, evoluiu, e sua ideia já era conhecida há décadas. Alexis Carrel, em 1910, já tinha utilizado um segmento de carótida conectando a aorta descendente à artéria coronária esquerda em um cachorro. Não obteve sucesso, pois dizia que o paciente só sobreviveria se a anastomose fosse feita em menos de 3 minutos!

Nas décadas de 1940 a 1960, vários cirurgiões experimentaram novas técnicas não só em animais, mas também em seres humanos. Em 1960, Robert Goetz fez uma anastomose da artéria mamária direita com a coronária direita em um paciente, sendo posteriormente proibido por colegas de realizar novos procedimentos por seu alto caráter experimental e não comprovado. Em 1962, David Sabiston usou um enxerto de safena entre a aorta ascendente e a coronária direita, mas o paciente teve um AVC, que o levou ao óbito. Em 1964 foi a vez de Vasilii Kolesov fazer uma anastomose mamária-coronária, procedimento que realizou em mais 30 pacientes até 1969. Em 1964, Edward Garrett e Michael DeBakey também fizeram uma “ponte de safena” para a coronária esquerda, mas o paciente infartou posteriormente. Em 1966, Donald Kahn e William Longmire fizeram duas RM: um paciente morreu no intraoperatório e o outro teve falha do enxerto.

Mas, então, por que Favaloro é considerado o pioneiro? Goetz foi o primeiro a realizar a cirurgia em um humano e a publicar, porém enterrou seu feito em um adendo de duas frases em um artigo de 1961 sobre seus experimentos com animais. Kolesov, o único entre os citados que teve uma série de casos à exceção de Favaloro, publicou em russo; Longmire, em francês; Kahn, Garrett e Sabiston só publicaram depois de 1971.

Por isso tudo isso, Favaloro, publicando seus resultados “apenas” em 1968 (em inglês e realizado nos Estados Unidos) ficou reconhecido como o pioneiro, alavancando uma febre de cirurgias de RM naquele país, chegando à expressiva marca de 100.000 cirurgias por ano em 1977.

Leitura recomendada

Jones DS. CABG at 50 (or 107?) – The complex course of therapeutic innovation. N Engl J Med. 2017;376(19):1809-11.

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