Dia 21/03: Trissomia do 21 – o coração na síndrome de Down

Reconhecer o fenótipo da síndrome de Down hoje em dia é algo comum, inclusive para a população leiga, visto que a carismática fácies com prega epicântica, osso nasal hipoplásico e protrusão lingual se tornou bem conhecida, em virtude das constantes campanhas de conscientização.

Contudo, poucos sabem que a relevante parcela de 40 a 50% dos nascidos com trissomia do cromossomo 21 apresenta algum tipo de cardiopatia congênita1. Embora haja uma complexa interação entre a genética e o desenvolvimento embrionário cardíaco, estudos sugerem correlação com a maior expressão de genes como HMGN1, DYRK1A, CRELD1 e GATA4, importantes na proliferação dos cardiomiócitos, em especial dos septos e das valvas cardíacas, e na função mitocondrial2,3.

Como consequência, essas crianças nascem com um risco 2 mil vezes maior de apresentar um defeito de septo atrioventricular (DSAV), a condição cardíaca congênita mais frequente nesta população (43%), seguido por comunicação interventricular (CIV, presente em 31% delas), comunicação interatrial (15%), tetralogia de Fallot (5%) e persistência do canal arterial (4%)4,5. Portanto, uma grande parcela desses pacientes necessitará de cirurgia cardíaca ao longo da vida.

Tamanha é a importância das cardiopatias nessa síndrome, que as Diretrizes de Atenção à Saúde de Pessoas com Síndrome de Down, da Sociedade Brasileira de Pediatria, recomendam que o ecocardiograma seja realizado na maternidade ou já esteja marcado na alta do lactente, mesmo que não haja qualquer sopro auscultável, e que seja realizado a cada 5 anos durante a vida adulta6.

Se não tratadas adequadamente, cardiopatias como DSAV e CIV implicam shunt esquerda-direita e sobrecarga volêmica e/ou pressórica. Ao longo do tempo, há risco de hipertensão pulmonar, com chance e intensidade tão maiores quanto maior o componente de pressão dessa sobrecarga. No espectro mais extremo da doença, encontra-se a síndrome de Eisenmenger, quando a doença vascular pulmonar é irreversível e limita sobremaneira a sobrevida do paciente7.

Contudo, quando diagnosticadas a tempo, a maioria das cardiopatias pode ser corrigida precocemente, evitando problemas futuros. Pacientes com alterações anatômicas complexas, como o DSAV, atualmente já chegam a uma sobrevida em 20 anos de 95% e uma sobrevida livre de reoperações em 20 anos de 92% em centros especializados8.

Neste dia 21 de março, o Blog do BJCVS quer ressaltar que a cardiopatia no lactente com Down não é uma sentença, mas sim um alerta para que se tenha um maior cuidado com o coração. Crianças que antes enfrentariam limitações severas se não diagnosticadas e tratadas, hoje podem ter a chance de crescer, estudar, trabalhar e participar plenamente da sociedade, ao receberem o cuidado e a atenção adequados.

Dia 21/03 : Trissomia do 21 – O coração na síndrome de Down

Referências

  1. Xu CX, Chen L, Cheng Y, Du Y. Prevalence of congenital heart defects in people with Down syndrome: a systematic review and meta-analysis. JEpidemiol Community Health. 2025;79(6):445-50. doi: 10.1136/jech-2023-220638.
  2. Ranade SS, Li F, Whalen S, Pelonero A, Ye L, Huang Y, et al. Myocardial reprogramming by HMGN1 underlies heart defects in trisomy 21. Nature. 2025;647(8091):979-87. doi: 10.1038/s41586-025-09593-9.
  3. Lana-Elola E, Aoidi R, Llorian M, Gibbins D, Buechsenschuetz C, Bussi C, et al. Increased dosage of DYRK1A leads to congenital heart defects in a mouse model of Down syndrome. Sci Transl Med. 2024;16(731):eadd6883. doi: 10.1126/scitranslmed.add6883.
  4. Gurvitz M, Krieger EV, Fuller S, Davis LL, Kittleson MM, Aboulhosn JA, et al. 2025 ACC/AHA/HRS/ISACHD/SCAI guideline for the management of adults with congenital heart disease: a report of the American College of Cardiology/American Heart Association Joint Committee on Clinical Practice Guidelines. J Am Coll Cardiol. 2025;87(7):822-976. doi: 10.1016/j.jacc.2025.09.006.
  5. Sarkozy A, Esposito G, Conti E, Digilio MC, Marino B, Calabrò R, et al. CRELD1 and GATA4 gene analysis in patients with nonsyndromic atrioventricular canal defects. Am J Med Genet A. 2005;139:236-8.
  6. Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Diretrizes de atenção à saúde de pessoas com síndrome de Down [Internet]. Rio de Janeiro: Sociedade Brasileira de Pediatria; 2020 [citado [citado 2026 mar. 16]. Disponível em: https://sbp.com.br/fileadmin/user_upload/22400b-Diretrizes_de_atencao_a_saude_de_pessoas_com_Down.pdf.
  7. D’Alto M, Di Marco GM. Eisenmenger syndrome in patients with Down syndrome. In: Dimopoulos K, Diller GP, editors. Pulmonary hypertension in adult congenital heart disease. Cham: Springer; 2017. p.273-85.
  8. Ramgren JJ, Nozohoor S, Zindovic I, Gustafsson R, Hakacova N, Sjögren J. Long-term outcome after early repair of complete atrioventricular septal defect in young infants. J Thorac Cardiovasc Surg. 2021;161(6):2145-53.
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