
Enquanto grandes nomes de praticamente todos setores da economia fazem questão de estarem bem representados nas mídias sociais, os médicos – e ainda mais os cirurgiões – têm sido lentos em adotá-las como parte de sua vida profissional. Naturalmente, restrições legais e o medo de criar problemas de responsabilidade são fatores que barram essa adoção. Por outro lado, o engajamento nas mídias sociais pode trazer muitos benefícios tanto aos médicos quanto a seus pacientes.
As mídias sociais são, hoje, a representação digital do mundo real. No último relatório trimestral emitido pelo Facebook, em 01/02/2017, quase 2 bilhões de pessoas possuíam uma conta ativa na plataforma. Esse número representa praticamente ⅔ da população economicamente ativa do mundo e, se considerarmos o fato de que o brasileiro está relativamente bem conectado à internet, esse valor pode facilmente chegar próximo da totalidade dos pacientes (e/ou seus familiares) de um médico. Somente esse fato já deveria ser uma boa razão para justificar a participação dos cirurgiões cardiovasculares nas mídias sociais, mas há outros.
De maneira sucinta, é possível enumerar ao menos três motivos pelos quais o médico deveria estar presente em plataformas como o Facebook, Twitter e LinkedIn: 1) educar e conhecer melhor seus pacientes; 2) manter contato com colegas de profissão; e 3) promover o seu trabalho.
A relação médico-paciente é, sabidamente, um dos elementos mais importantes para a adesão ao tratamento médico e as mídias sociais são a extensão digital dessa relação. É natural que, em espaços democráticos como os fóruns (ou grupos do Facebook), os pacientes sejam mais sinceros e abertos do que são quando estão no consultório. Observar os comportamento dos pacientes (não necessariamente os seus próprios) online, ativa ou passivamente, pode fornecer perspectivas que teriam sido desconhecidas ou desconsideradas. Existem, inclusive, plataformas voltadas apenas para esse tipo de discussão, como o patientslikeme.com, uma rede social que permite que pacientes compartilhem informações de saúde um com os outros. Quando os médicos são ativos nas mídias sociais, cria-se uma oportunidade adicional para alcançar os pacientes e impactar em suas escolhas diárias.
O segunda razão é a possibilidade de se manter-se atualizado e em contato com colegas de profissão. Mais do que isso, as mídias sociais permitem acompanhar associações médicas e revistas científicas, como o próprio Brazilian Journal of Cardiovascular Surgery. Através do Facebook, Twitter ou LinkedIn, é possível manter-se atualizado sobre as últimas publicações científicas na área ou sobre os highlights de uma grande conferência, por exemplo, mesmo que não seja possível estar presente. Para manter-se em contato com colegas de profissão, como os cardiologistas e cirurgiões cardiovasculares, uma das melhores e mais subutilizadas ferramentas disponíveis é o LinkedIn. Talvez pelo seu formato pensado primeiramente para a área de negócios, talvez pelas características particulares da contratação de médicos, ou ambas e outras mais, o uso do LinkedIn na área de saúde é ainda bastante limitado no Brasil. Ainda assim, ele é uma plataforma incrível para estar em contato não apenas com colegas de profissão, mas também com clínicas, hospitais e empresas do setor. Uma versão alternativa ao LinkedIn, para os cirurgiões que também estão engajados no campo da pesquisa, é o ResearchGate. A plataforma permite adicionar todos os projetos de pesquisa em que o usuário está trabalhando, bem como seus artigos publicados e, também, acompanhar o que seus colegas estão fazendo. Mais do que isso, o ResearchGate permite que se faça perguntas (e também respondê-las) aos demais usuários da plataforma. Com tantos recursos, não há desculpas para não se manter atualizado e em contato com os colegas de profissão.
Finalmente, as mídias sociais são um ótimo meio de promover o seu trabalho. Segundo o Dr. Kevin Campbell, um cardiologista internacionalmente reconhecido e grande defensor do uso das mídias sociais na prática médica, os médicos que estão presentes em plataformas como o Facebook, Twitter e LinkedIn costumam ser melhor avaliados pelos pacientes do que seus pares que não mantém um perfil social. Além disso, cada dia mais os pacientes buscam no Google pelo nome de seus médicos e manter a presença digital, através de blogs ou redes sociais, garante que seus pacientes encontrem conteúdo de qualidade relacionado ao seu nome, melhorando assim sua reputação online.
Como tudo, o uso das mídias sociais por médicos tem seus poréns. Alguns pontos importantes de serem comentados incluem os limites da relação médico paciente, que, se não respeitados, podem levar à perda de privacidade, superexposição e situações que configurem violação do código de ética médica. Outro importante cuidado que deve ser tomado é em relação ao compartilhamento de informações de pacientes entre profissionais. Mesmo que a troca de mensagens ocorra em grupos fechados ou em mídias sociais específicas para o intercâmbio de experiências profissionais, como o Doximity e sua versão brasileira, o Ology, lembre-se, tudo o que você publica fica documentado e pode ser disseminado rapidamente.
No Brasil, o CFM determina algumas regras para o uso ético das mídias sociais. Existem muitas coisas que o médico NÃO pode fazer, dentre as quais:
- consultar, diagnosticar ou prescrever por qualquer meio de comunicação em massa;
- participar de anúncios de empresas comerciais ou de seus produtos, qualquer que seja sua natureza;
- fazer propaganda de métodos ou técnicas não reconhecidas como válidos pelo CFM;
- divulgar imagens e/ou áudios que caracterizem sensacionalismo, autopromoção ou concorrência desleal;
- distribuir e publicar em sites e canais de relacionamento fotos tiradas com pacientes no momento de atendimento, como consultas ou cirurgias;
- anunciar especialidade/área de atuação não reconhecida ou especialidade/área de atuação para a qual não esteja qualificado e registrado.
Na dúvida, procure sempre consultar a resolução do CFM nº 2126/2015 , que estabelece os limites éticos do uso das mídias sociais pelos médicos no Brasil.
Ponderados os prós e os poréns do uso das mídias sociais, é possível encontrar um bom equilíbrio entre a comunicação transparente e as limitações impostas pelo setor. Comece hoje mesmo a preencher seu perfil profissional no Facebook, Twitter e LinkedIn e a compartilhar conteúdo de qualidade com sua rede. Quando estiver mais confortável, entre também para as demais plataformas mencionadas neste artigo. Com a participação dos cirurgiões cardiovasculares nas mídias sociais, todo mundo sai ganhando, em particular a especialidade, que passa a ser diariamente revigorada pelo engajamento de seus membros.
REFERÊNCIAS
- Brown, James, Christopher Ryan, and Anthony Harris. “How Doctors View And Use Social Media: A National Survey”. Journal of Medical Internet Research 16.12 (2014): e267.
- DeCamp, Matthew. “Physicians, Social Media, And Conflict Of Interest”. Journal of General Internal Medicine 28.2 (2012): 299-303.
- McGowan, Brian S et al. “Understanding The Factors That Influence The Adoption And Meaningful Use Of Social Media By Physicians To Share Medical Information”. Journal of Medical Internet Research 14.5 (2012): e117.
- “Melhores Práticas Para Médicos Nas Redes Sociais”. Ology.com.br. N.p., 2017. Web. 2 Feb. 2017.
- Panahi, S., J. Watson, and H. Partridge. “Social Media And Physicians: Exploring The Benefits And Challenges”. Health Informatics Journal 22.2 (2014): 99-112.