O tabagismo segue sendo uma das principais causas evitáveis de doenças no mundo. Ainda que sua associação com o câncer de pulmão e a doença pulmonar obstrutiva crônica seja amplamente reconhecida pela população em geral, o impacto desse hábito sobre o coração e os vasos sanguíneos costuma ser subestimado. Estima-se que, em todo o mundo, cerca de 3 milhões de pessoas vão a óbito a cada ano em decorrência de doenças cardiovasculares, que ocorrem como resultado ao consumo de tabaco[1].
Considerando os inúmeros malefícios do tabagismo convencional, é importante compreender sua causa a partir da fisiopatologia básica dessas doenças. A fumaça do cigarro contém milhares de substâncias químicas, várias delas com ação direta sobre o sistema cardiovascular, o que leva a um estado protrombótico, tornando o sangue mais propenso à formação de coágulos. Em decorrência desses fenômenos, as microlesões no endotélio vascular aceleram o processo aterosclerótico, contribuindo para o espessamento e estreitamento dos vasos sanguíneos e, consequentemente, para a elevação da pressão arterial[2,3]. Tal conjunto de mecanismos explica a relevância do combate ao tabagismo dentro da esfera dos fatores de risco modificáveis visando à prevenção de infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral, angina, doença arterial periférica, fenômenos tromboembólicos e morte súbita cardíaca[2].
Ademais, vale também compreender que não existe um nível considerado seguro de exposição ao tabaco, do ponto de vista da saúde cardiovascular. Estudos indicam que o consumo de apenas um cigarro por dia já se associa a um risco importante de doença coronariana e acidente vascular cerebral, caracterizando cerca de metade do risco apresentado por pacientes que fumam 20 cigarros ao dia[4], o que indica que mesmo o consumo mínimo já é suficiente para a progressão de doenças potencialmente graves. Diante disso, fica claro que reduzir o número de cigarros não é uma estratégia eficaz de proteção cardiovascular, tendo em vista a relação não linear entre risco e consumo. A cessação completa do tabagismo, portanto, deve ser reforçada como a única meta capaz de mitigar significativamente o risco cardiovascular associado ao tabaco.
Do ponto de vista da cirurgia cardiovascular, o impacto do tabagismo é observado tanto na indicação quanto nos desfechos dos procedimentos. Pacientes fumantes tendem a apresentar doença arterial coronariana mais precoce, mais difusa e mais avançada anatomicamente, o que se traduz em maior complexidade cirúrgica na revascularização do miocárdio[3,5,6]. O tabagismo ativo no período perioperatório também está associado a maior risco de complicações pulmonares, cicatrização mais lenta e maior probabilidade de disfunção dos enxertos. Após a revascularização miocárdica, a persistência do tabagismo, por sua vez, está relacionada a maior incidência de novos eventos coronarianos e necessidade de reintervenções, uma vez que a aterosclerose continua a progredir nos segmentos arteriais não tratados cirurgicamente[5].
Por outro lado, a cessação do tabagismo está entre as intervenções de maior impacto na prevenção cardiovascular secundária. Estudos indicam que, um ano após a interrupção do hábito, o risco de eventos cardíacos graves pode reduzir-se em torno de 50% em comparação aos pacientes que permanecem fumando, com aproximação progressiva do risco observado em não fumantes ao longo do tempo[1,2,6,7]. Por esse motivo, as diretrizes para tratamento da doença arterial coronariana crônica afirmam que o abandono do tabagismo, junto ao controle da pressão arterial e do perfil lipídico, é essencial para o tratamento clínico otimizado que antecede e acompanha qualquer estratégia de revascularização[2,6,7].
Do ponto de vista da saúde pública, o tabagismo também representa um percentil de gasto notavelmente elevado. Estima-se que cerca de 5,7% de todos os custos em saúde no mundo são destinados ao tratamento de doenças decorrentes do uso de tabaco[8]. A exposição à fumaça, decorrente do tabagismo passivo, também está associada a maior risco cardiovascular, incluindo hipertensão arterial, o que amplia a dimensão do problema para além do indivíduo que fuma diretamente[1,3].
Embora historicamente associado ao consumo de cigarros convencionais, o cenário contemporâneo é marcado pela expansão de novos produtos e novas modalidades de consumo, especialmente cigarros eletrônicos e narguilé (hookah/cachimbo d’água), cuja crescente popularização contribui para a manutenção e renovação da exposição populacional aos produtos de tabaco e à nicotina. Os cigarros eletrônicos, frequentemente apresentados sob uma perspectiva de menor risco ou como alternativa inócua ao cigarro convencional, produzem aerossóis que podem conter nicotina, partículas ultrafinas e diferentes substâncias químicas potencialmente tóxicas, além de favorecerem a dependência e a iniciação do consumo de nicotina, particularmente entre adolescentes e adultos jovens[9,10], consequentemente aumentando o potencial tempo de exposição a tais substâncias maléficas nessa população. O narguilé, por sua vez, tampouco constitui uma alternativa segura ao cigarro, uma vez que a combustão do tabaco e do carvão empregado em seu funcionamento promove exposição à nicotina, monóxido de carbono, material particulado e outros compostos nocivos[11]. Do mesmo modo, a duração prolongada das sessões pode resultar em elevada exposição cumulativa a essas substâncias. Dessa forma, a abordagem do tabagismo deve ultrapassar a concepção restrita do cigarro tradicional e contemplar as transformações do mercado e dos padrões de consumo, fortalecendo ações de educação em saúde, regulação, prevenção da iniciação e, principalmente, instigando a cessação do uso[11].
A abordagem do tabagismo, portanto, não deve ser tratada como um aspecto isolado de orientação ao paciente, mas como parte estrutural do manejo do risco cardiovascular, uma vez que tem repercussões diretas sobre a indicação cirúrgica, a técnica empregada, os desfechos perioperatórios e a durabilidade dos resultados a longo prazo. O cirurgião cardiovascular ocupa uma posição privilegiada para reforçar, junto à equipe multidisciplinar, a importância da cessação do tabagismo como medida terapêutica de primeira linha.
Referências
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