
Fonte: Academia de Medicina de São Paulo.
No início do século XX, operar o coração ainda significava atravessar uma das fronteiras mais temidas da cirurgia. Durante muito tempo, intervir diretamente sobre esse órgão era considerado não apenas tecnicamente difícil, mas também, para muitos, praticamente impossível.
Em 1896, apenas nove anos antes do episódio que marcaria a história brasileira, Ludwig Rehn realizou, na Alemanha, a primeira sutura bem-sucedida de uma ferida cardíaca. O procedimento tornou-se um dos marcos da cirurgia cardíaca moderna ao comprovar que uma lesão do coração poderia ser abordada e reparada cirurgicamente[1].
A discussão não demoraria a chegar ao Brasil. Em 1900, Alfredo José Cardoso apresentou a tese “Cirurgia do coração”, reunindo experiências internacionais e experimentação relacionada à sutura cardíaca[2]. Cinco anos depois, essa discussão deixaria o campo teórico.
Era 16 de agosto de 1905. Na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, João Alves de Lima recebeu um paciente com um grave ferimento cardíaco. Diante da gravidade do quadro, decidiu intervir diretamente sobre o coração. Durante a operação, a lesão miocárdica foi identificada e suturada[2].
O paciente sobreviveu por pouco tempo após o procedimento[2]. Ainda assim, o significado histórico daquela intervenção ultrapassou seu desfecho. Analisar essa operação sob a ótica da cirurgia cardiovascular contemporânea pode fazer com que sua dimensão seja subestimada. Mas naquela sala não havia circulação extracorpórea, cardioplegia, ecocardiografia intraoperatória, monitorização hemodinâmica moderna ou unidades de terapia intensiva como conhecemos hoje. Havia um paciente gravemente ferido e um cirurgião diante de um coração que necessitava de reparo cirúrgico.
Pela primeira vez no país, uma lesão cardíaca havia sido abordada diretamente e suturada cirurgicamente[2]. Naquele 16 de agosto, o coração também se tornava território da cirurgia brasileira.
O episódio também não foi esquecido dentro de uma sala operatória. Posteriormente, Alves de Lima comunicou o caso à Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, permitindo que aquela experiência passasse a integrar o registro médico da época[2,3]. Esse detalhe talvez seja tão importante quanto parece simples: a cirurgia não terminava no procedimento.
João Alves de Lima integrava uma geração de cirurgiões que acompanhava a transformação da própria cirurgia. Atuou na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo e posteriormente como professor de Clínica Cirúrgica, mantendo também participação na vida científica e associativa da medicina paulista[3]. Sua sutura cardíaca de 1905 deve ser compreendida nesse ambiente, em um período no qual anestesia, antissepsia e novas técnicas começavam a ampliar progressivamente as doenças e condições que poderiam ser tratadas cirurgicamente.
Nas décadas seguintes, esses limites continuariam a se deslocar. O que inicialmente significava alcançar e reparar um coração ferido evoluiu para a possibilidade de tratar cardiopatias cada vez mais complexas. Em aproximadamente meio século, portanto, a pergunta havia mudado. Já não se discutia apenas se seria possível suturar o coração. Passou a ser possível interromper temporariamente sua função, manter artificialmente a circulação e trabalhar de uma maneira totalmente diferente[4].
Na década de 1960, grupos liderados por Norman Shumway e Richard Lower, nos Estados Unidos, acumulavam extensa experiência experimental em transplante cardíaco. Adrian Kantrowitz também se aproximava da realização do procedimento, enquanto Christiaan Barnard desenvolvia seu programa na África do Sul. Donald McRae reconstruiria posteriormente esse período no livro Cada segundo conta: a corrida pelo primeiro transplante de coração[5].
A “corrida” pelo primeiro transplante não dizia respeito apenas a quem chegaria primeiro. Técnica cirúrgica, rejeição, imunossupressão, preservação do órgão e seleção de doadores eram problemas que as diferentes equipes tentavam solucionar quase simultaneamente.
Em 3 de dezembro de 1967, Barnard realizou, na Cidade do Cabo, o primeiro transplante cardíaco humano[5,6]. Menos de seis meses depois, na madrugada de 26 de maio de 1968, a equipe liderada por Euryclides de Jesus Zerbini realizou, no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, o primeiro transplante cardíaco humano do Brasil[6,7].
Entre João Alves de Lima e Professor Euryclides Zerbini haviam transcorrido menos de 63 anos. Dentro do intervalo de uma vida humana, a cirurgia havia passado de tentar fechar uma ferida no coração a conseguir substituir o próprio órgão.
A história posterior da cirurgia cardiovascular brasileira é muito mais extensa. Novos serviços foram estruturados, tecnologias passaram a ser desenvolvidas no país e diferentes escolas cirúrgicas contribuíram para a expansão da especialidade[7,8]. Esse crescimento também levou à sua organização científica: em 1969, foi criado o Departamento de Cirurgia Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia e, posteriormente, surgiram a Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular e a Revista Brasileira de Cirurgia Cardiovascular, atual Brazilian Journal of Cardiovascular Surgery.
Mas, neste 16 de agosto, vale um olhar ao ponto de início.
A resposta construída naquele período abriu caminho para perguntas cada vez mais complexas. Algumas delas levaram décadas para serem respondidas; outras continuam aguardando uma resposta da cirurgia cardiovascular contemporânea.
Mais de 120 anos depois, revisitar aquela operação permite colocar essa evolução em perspectiva. Não porque tudo o que veio depois tenha começado em uma única sala cirúrgica ou com um único cirurgião, mas porque episódios como o de João Alves de Lima mostram como os limites de uma especialidade se deslocam ao longo do tempo.
Aquilo que hoje entendemos como prática estabelecida também já esteve, em algum momento, na fronteira do possível.
Referências
- Blatchford JW 3rd. Ludwig Rehn: the first successful cardiorrhaphy. Ann Thorac Surg. 1985;39(5):492-5. doi:10.1016/S0003-4975(10)61972-8.
- Costa IA. História da cirurgia cardíaca brasileira. Rev Bras Cir Cardiovasc. 1998;13(1):1-7. doi: 10.1590/S0102-76381998000100002.
- Academia de Medicina de São Paulo. João Alves de Lima [Internet] [citado 2026 ago. 26]. Disponível em: https://www.academiamedicinasaopaulo.org.br/membros-academicos/joao-alves-de-lima/.
- Gomes WJ, Saba JC, Buffolo E. 50 anos de circulação extracorpórea no Brasil: Hugo J. Felipozzi, o pioneiro da circulação extracorpórea no Brasil. Rev Bras Cir Cardiovasc. 2005;20(4). doi: 10.1590/S0102-76382005000400002.
- McRae D. Cada segundo conta: a corrida pelo primeiro transplante de coração. Rio de Janeiro: Record; 2009.
- Stolf NAG. Reflections Upon 55 Years of the First Human Heart Transplant in Brazil. Braz J Cardiovasc Surg. 2024;39(2). doi: 10.21470/1678-9741-2023-0208.
- Stolf NAG, Braile DM. Euryclides de Jesus Zerbini: a biography. Rev Bras Cir Cardiovasc. 2012;27(1):137-47. doi: 10.5935/1678-9741.20120020.
- Braile DM, Gomes WJ. Evolução da cirurgia cardiovascular: a saga brasileira. Uma história de trabalho, pioneirismo e sucesso. Arq Bras Cardiol. 2010;94(2):151-2. doi: 10.1590/S0066-782X2010000200002.