19/09 – Dia Mundial de Sensibilização para a Dissecção da Aorta: situação da dissecção da aorta no Brasil no último ano de 2025

Arthur D. Botelho, Dr. Alexandre N. Murakami

A dissecção da aorta é uma das mais graves emergências cardiovasculares, exigindo reconhecimento e tratamento rápidos.[1,2] Apesar da importância do atendimento hospitalar, saber como essa doença se distribui pelo país também ajuda a compreender o perfil dos pacientes e os desfechos relacionados às internações.

Para refletir sobre a importância do Dia Mundial de Sensibilização para a Dissecção da Aorta, foram avaliados os registros de internação hospitalar do Sistema Único de Saúde (SUS) referentes ao período entre janeiro e dezembro de 2025, considerando os registros com diagnóstico principal de dissecção da aorta utilizados no estudo.[3] Foram avaliadas a distribuição dos casos entre estados e regiões, as diferenças de acordo com sexo e idade e os óbitos registrados durante essas internações.

Onde a doença esteve mais presente no país?

Durante 2025, foram registradas 3.111 internações por dissecção da aorta na base analisada. Em números absolutos, São Paulo apresentou 767 internações, sendo o estado com o maior número de registros. Entretanto, quando os casos foram relacionados ao tamanho da população, o cenário foi diferente: Mato Grosso do Sul apresentou a maior taxa, com 3,52 internações por 100.000 habitantes, enquanto São Paulo apresentou aproximadamente 1,66 por 100.000 habitantes. Essa diferença mostra a importância de distinguir o número absoluto de internações da taxa populacional. Um estado pode apresentar mais registros simplesmente por possuir uma população maior, enquanto a taxa permite uma comparação mais adequada entre populações de tamanhos diferentes.

 

Quem eram os pacientes internados?

Entre as internações registradas em 2025, 1.885 foram de homens e 1.226 de mulheres, correspondendo a 60,6% e 39,4%, respectivamente. Ao considerar o tamanho da população de cada sexo, a taxa também foi maior entre os homens, com 1,81 internação por 100.000 habitantes, contra 1,12 entre as mulheres. A diferença foi ainda mais evidente entre os pacientes de 40 a 49 anos, faixa em que a taxa de internação entre os homens foi aproximadamente 2,4 vezes maior que entre as mulheres.

A idade também apresentou diferenças importantes. A faixa de 60 a 69 anos concentrou o maior número absoluto de internações, com 949 casos. Entretanto, quando considerada a população de cada faixa etária, a maior taxa foi observada entre pessoas de 70 a 79 anos, com 6,56 internações por 100.000 habitantes. Assim como na comparação entre os estados, o número de casos e a taxa populacional mostram perspectivas diferentes sobre a distribuição da doença.

 

Como a dissecção da aorta costuma se apresentar?

Na prática, a dissecção da aorta costuma se manifestar de forma súbita, e a dor intensa no peito ou nas costas é um dos sintomas mais característicos. A dor pode começar de maneira abrupta e, em alguns casos, irradiar para outras regiões. Também podem ocorrer falta de ar, desmaio, sintomas neurológicos, dor abdominal ou alterações na circulação de braços e pernas, dependendo de quais estruturas são afetadas pela dissecção. Nem todos os pacientes apresentam a forma clássica da dor, o que pode dificultar o reconhecimento da doença.[1,2,4]

Por isso, diante de uma dor torácica ou dorsal súbita e intensa, especialmente em pacientes com fatores de risco para doença da aorta, a possibilidade da presença de síndrome aórtica aguda deve ser considerada. O reconhecimento precoce é fundamental, já que complicações como ruptura da aorta, tamponamento cardíaco, acidente vascular cerebral e comprometimento da circulação de órgãos podem ocorrer.[1,4] 

Quantos óbitos foram registrados em 2025?

Entre as 3.111 internações identificadas, foram registrados 533 óbitos, correspondendo a 17,1% das internações analisadas. Esse percentual representa a proporção de óbitos entre as internações incluídas no estudo e não deve ser interpretado como a mortalidade de todas as pessoas com dissecção da aorta no Brasil, uma vez que a fonte utilizada corresponde aos registros de internação hospitalar do SUS.

Entre homens e mulheres, foram registrados óbitos em 16,7% e 17,8% das internações, respectivamente. Essa diferença não apresentou significância na análise realizada e permaneceu sem diferença significativa após considerar idade e região. Por outro lado, o aumento da idade esteve associado a maior probabilidade de óbito durante a internação. Quando os óbitos foram relacionados ao tamanho da população, Mato Grosso do Sul apresentou aproximadamente 0,99 óbito hospitalar por 100.000 habitantes, enquanto São Paulo apresentou aproximadamente 0,29 por 100.000 habitantes.

 

O que os números revelam sobre a doença no Brasil?

Os dados referentes a 2025 mostram diferenças importantes na distribuição das internações por dissecção da aorta no país. Foram registradas 3.111 internações e 533 óbitos, com predominância de homens entre os registros. A faixa de 60 a 69 anos apresentou o maior número absoluto de internações, enquanto a faixa de 70 a 79 anos apresentou a maior taxa em relação à população. Entre os estados, São Paulo concentrou o maior número absoluto de internações, enquanto Mato Grosso do Sul apresentou a maior taxa de internação por 100.000 habitantes.

Esses resultados representam as internações registradas no SUS durante 2025 e não permitem, isoladamente, afirmar que determinado estado apresenta o maior risco individual de desenvolver a doença.[3] Da mesma forma, as diferenças encontradas não permitem estabelecer suas causas. O objetivo é apresentar um retrato dos registros hospitalares daquele período e mostrar como diferentes formas de medir os mesmos eventos podem produzir interpretações distintas.

Este é, portanto, um retrato específico de 2025. A próxima etapa será ampliar a avaliação para o período de 2015 a 2025, permitindo verificar como as internações, as taxas populacionais e os óbitos se comportaram ao longo de 11 anos.

 

Referências

  1. Isselbacher EM, Preventza O, Hamilton Black J 3rd, Augoustides JG, Beck AW, Bolen MA, et al. 2022 ACC/AHA Guideline for the Diagnosis and Management of Aortic Disease. Circulation. 2022;146(24):e334-482.
  2. Hagan PG, Nienaber CA, Isselbacher EM, Bruckman D, Karavite DJ, Russman PL, et al. The International Registry of Acute Aortic Dissection (IRAD): new insights into an old disease. JAMA. 2000;283(7):897-903.
  3. Brasil. Ministério da Saúde. Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde. Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS). Brasília: Ministério da Saúde.
  4. Nazerian P, Mueller C, Soeiro AM, Leidel BA, Cerini G, Christ M, et al. Diagnosis and management of acute aortic syndromes in the emergency department. Int J Cardiol. 2020;316:1-8.
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