Qual a relação entre suicídio e cirurgia cardiovascular?

Estima-se que, a cada ano, 703 mil pessoas morram por suicídio no mundo. Trata-se da quarta causa principal de óbito entre jovens de 15 a 29 anos, e mais da metade de todas as mortes por suicídio ocorre antes dos 50 anos de idade. Embora a taxa global apresente sinais de declínio, essa realidade não é uniforme entre os países. Além disso, o impacto recai desproporcionalmente sobre grupos vulneráveis: refugiados, migrantes, prisioneiros, povos indígenas e indivíduos da comunidade LGBTI. Uma pessoa com depressão tem vinte vezes mais probabilidade de morrer por suicídio do que alguém sem o transtorno. A tentativa de suicídio permanece criminalizada em mais de 20 países, com penalidades que variam de multas a penas de prisão.

Se esses números já são alarmantes na população geral, ganham contornos ainda mais graves quando se examinam populações específicas, entre elas, os pacientes cardiovasculares.

A relação entre doenças cardiovasculares e transtornos mentais é complexa e bidirecional. Uma revisão sistemática com metanálise que incluiu mais de 25 milhões de participantes demonstrou que pacientes com doenças cardiovasculares apresentam risco significativamente maior de suicídio em comparação à população geral, com destaque para doença cerebrovascular, insuficiência cardíaca congestiva, doença isquêmica do coração e hipertensão. A razão de mortalidade padronizada para suicídio é de quase três vezes mais que o esperado para a população geral. O mesmo estudo desenvolveu um modelo preditivo de risco de suicídio baseado em doenças, atribuindo pontuações a 16 condições clínicas. Os transtornos do humor, o abuso de substâncias e a depressão ocuparam os maiores escores, mas as doenças cardiovasculares também contribuíram de forma significativa para o risco, reforçando que esses pacientes devem ser considerados alvos prioritários para estratégias de prevenção.

A insuficiência cardíaca (IC) merece destaque especial nessa discussão. Uma metanálise publicada em 2025, que analisou oito estudos envolvendo mais de 8,5 milhões de participantes, encontrou risco aumentado de suicídio entre pacientes com IC em comparação à população geral. Os dados são ainda mais impressionantes quando se examina o período imediatamente após o diagnóstico. Em Taiwan, observou-se que o risco de suicídio entre pacientes com IC era mais elevado nos primeiros seis meses após o diagnóstico. Na Suécia, um estudo com mais de 154 mil pacientes com IC mostrou que o risco aumentava de forma abrupta nos primeiros três meses após o diagnóstico. Além disso, os homens apresentavam risco de suicídio mais de quatro vezes maior, e as mulheres, quase três vezes maior. Mesmo um ano após o diagnóstico, o risco permanecia significativamente elevado.

Há vários mecanismos que explicam essa associação. A IC é uma síndrome progressiva, que impõe desafios físicos e psicológicos debilitantes, aumentando o sofrimento, a depressão e os pensamentos de suicídio. Estima-se que 25% a 50% dos pacientes com IC apresentem depressão, dependendo dos critérios utilizados, um número expressivamente superior ao da população geral. A ansiedade afeta cerca de 40% desses pacientes, e o transtorno de estresse pós-traumático pode ocorrer em 12% a 24% após eventos cardíacos agudos, como infarto ou parada cardíaca. A depressão, por sua vez, é um preditor independente e ominoso de desfechos adversos: pacientes deprimidos com IC têm risco de morte até duas vezes maior, maiores taxas de readmissão hospitalar e geram custos mais elevados.

O impacto psicológico da cirurgia cardíaca também não pode ser subestimado. Um estudo de coorte populacional sueco, utilizando dados do registro SWEDEHEART, acompanhou mais de 125 mil pacientes submetidos à cirurgia de revascularização do miocárdio (CRM) e quase 500 mil controles pareados por idade e sexo. A incidência cumulativa de depressão foi de 6,1% entre os pacientes operados, contra 4,7% nos controles. O risco ajustado foi marginalmente aumentado, mas na análise por faixa etária os pacientes com menos de 65 anos apresentaram maior risco de desenvolver depressão após a CRM, especialmente nos primeiros cinco anos após o procedimento. Esse achado é particularmente relevante quando se considera que a depressão pós-CRM está associada a pior prognóstico, maior taxa de reinternação e, como demonstram os estudos anteriores, maior risco de suicídio.

Apesar das evidências significativas, as diretrizes de prática clínica para doenças cardiovasculares ainda deixam a desejar no manejo da depressão. Embora 71% das diretrizes reconheçam a depressão como fator de risco, apenas 23% oferecem recomendações tanto de rastreamento quanto de tratamento. Apenas 12% envolvem especialistas em saúde mental em seu desenvolvimento, e somente 12% fazem referência cruzada a uma diretriz específica de depressão. As diretrizes focadas em mulheres não oferecem nenhuma recomendação de tratamento, e apenas 3% abordam interações medicamentosas entre psicofármacos e drogas para doenças cardiovasculares.

As diretrizes de acidente vascular cerebral concentram a maioria das recomendações sobre depressão, enquanto as diretrizes de doença arterial periférica e doença aórtica praticamente não abordam o tema. Quando existem, as recomendações de tratamento incluem terapia cognitivo-comportamental como primeira escolha para intervenção psicológica, seguida pelo uso de inibidores seletivos de recaptação de serotonina como opção farmacológica. O exercício físico é frequentemente sugerido, mas raramente apoiado por evidências fortes.

Os dados aqui apresentados têm implicações diretas para a prática clínica. O risco aumentado de suicídio entre pacientes cardiovasculares, especialmente aqueles com insuficiência cardíaca, doença cerebrovascular e no período pós-cirurgia cardíaca, demanda que o rastreamento de sintomas depressivos e ideação suicida seja incorporado à rotina de avaliação desses pacientes. Instrumentos breves e validados, como o questionário PHQ-9, podem ser aplicados na prática ambulatorial e hospitalar sem sobrecarga significativa para o clínico.

O período imediatamente após o diagnóstico ou após a cirurgia é particularmente crítico. O risco de suicídio é mais elevado nos primeiros três a seis meses, o que sugere que a avaliação de saúde mental deve ser intensificada nessa janela temporal. Modelos de cuidado que integrem cardiologia, psiquiatria e serviço social podem reduzir esse risco significativamente.

A prevenção do suicídio em pacientes cardiovasculares não é responsabilidade exclusiva da psiquiatria, mas sim uma atribuição compartilhada por todos os profissionais que cuidam do coração. Reconhecer que a depressão é um fator de risco independente para eventos cardiovasculares e para o suicídio, e agir sobre esse conhecimento, é um passo essencial para um cuidado verdadeiramente integral.

 

Referências

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