Quando seu coração desacelera ou quer tomar um ritmo perigoso, um pequeno dispositivo pode salvar você ou normalizar uma vida que estava limitada: o marca-passo. Em 23 de setembro, é comemorado no Brasil o Dia do Portador de Marca-passo, cuja história e importância são recordadas hoje pelo blog do Brazilian Journal of Cardiovascular Surgery (Figura 1).

Figura 1. Mudanças disruptivas no desenvolvimento de marca-passos cardíacas ao longo do tempo.
Fonte: Mulpuru et al., 2017[1].
Essa história começa em 1932, com Hyman, com o primeiro marca-passo artificial (ainda externo), cuja energia era gerada a manivela e transmitida por uma agulha (que funcionava como eletrodo) transfixando o espaço intercostal dos pacientes. No dia 8 de outubro de 1958, Elmqvist e Senning implantaram o primeiro marca-passo totalmente implantável em Arne Larsson, que desenvolvera um bloqueio atrioventricular total, com sucesso, embora por apenas 8 horas. Após a primeira troca, o segundo gerador durou 8 dias e assim sucessivamente até que, em 2001, aos 86 anos, Larsson faleceu, após 26 trocas de dispositivo, de uma causa não relacionada[1,2].
No cenário brasileiro, chama-se atenção para o fato de que, na mesma década, o Prof. Dr. Adib Jatene foi pioneiro no desenvolvimento de marca-passos implantáveis no Brasil, no Instituto de Cardiologia do Estado de São Paulo (Icesp), hoje Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, motivo pelo qual o primeiro dispositivo foi chamado de “modelo Icesp”. O marca-passo media cerca de 8 cm de diâmetro, pesava aproximadamente 150 gramas e possuía bateria de mercúrio com duração média de 8 meses[3].
Graças ao desenvolvimento tecnológico dos dispositivos ao longo do tempo, a realidade brasileira, inclusive no Sistema Único de Saúde (SUS), já conta com eletrodos transvenosos e baterias de lítio com duração média de uma década, variando conforme a demanda por estimulação e a energia necessária para cada estímulo (pace) pelo marca-passo. A título de comparação, atualmente temos o marca-passo Medtronic Attesta DR 01, disponível em alguns serviços do SUS, que pesa 27 gramas, 4,8 cm no seu maior diâmetro e apenas 0,7 mm de espessura (Figura 2). Esse dispositivo passa despercebido em grande parte dos pacientes eutróficos, uma vez que o marca-passo é implantado em loja submuscular (profundamente ao músculo peitoral maior).

Figura 2. (A) Gerador de marca-passo disponível em alguns serviços do SUS atualmente.
Fonte: https://www.medtronic.com/en-ca/healthcare-professionals/products/cardiac-rhythm/pacing-systems/pacemakers/attesta-mri-surescan-pacemaker.html.
Acesso em 18 de setembro de 2026.
Além disso, esse gerador é compatível com a aquisição de imagens de ressonância magnética, desde que respeitadas as condições de aquisição explicitadas na carteira do portador, disponibilizada no dia do implante. Isso quebra um dos mitos que afligem os portadores de marca-passo: o de que “não se pode fazer ressonância”. Assim, vale a pena esclarecer mitos e verdades frequentemente citados pelos portadores no consultório:
- “Quem tem marca-passo não pode fazer atividade física”: Após recuperação, a maioria dos pacientes pode retornar a praticar exercícios, havendo inclusive algoritmos próprios nos sistemas de programação do marca-passo para ajudar a responder de forma adequada à maior demanda do exercício, seja usando o sense atrial, seja usando acelerômetros.
- “Não posso passar em detector de metais ou viajar de avião”: Ao apresentar a carteira do portador, a equipe de segurança realizará procedimentos específicos para avaliá-lo e você poderá entrar no banco ou viajar sem restrições.
- “Micro-ondas, televisão e eletrodomésticos são perigosos”: Marca-passos atuais praticamente não interagem ou possuem algoritmos para perceber uma possível interferência eletromagnética de aparelhos domésticos habituais, de forma que não devem interferir na vida normal do indivíduo.
- “Quando a bateria acaba, é preciso trocar tudo”: provavelmente falso. Estando próximo ou quando ocorre exaustão da bateria do gerador do marca-passo, é realizado o procedimento de troca apenas do gerador, aproveitando-se os cabos já implantados. Contudo, nesse momento, os cabos-eletrodo têm sua capacidade de estimulação e impedância testados para avaliar a presença de fraturas, deslocamento ou perda de estimulação e a consequente necessidade de troca, o que ocorre na minoria dos casos. Por isso, é importante realizar consultas de rotina para avaliação do dispositivo, conforme orientado pelo médico, para avaliar evolutivamente a bateria e verificar se a programação de estimulação está adequada e se o circuito completo está funcionando adequadamente.
- “Meu marca-passo está me dando choque”: possivelmente verdadeiro. Alguns tipos de marca-passo possuem a função de desfibrilação, tendo sido implantados em pacientes com risco de arritmia maligna e parada cardíaca. É possível que o portador em questão tenha (ou não) apresentado uma arritmia maligna, como fibrilação ou taquicardia ventricular, e o dispositivo tenha reconhecido essa arritmia e realizado uma descarga para reversão do ritmo ao normal. Se estiver ocorrendo com você ou com um conhecido, é importante buscar o médico o quanto antes para avaliar o evento que levou ao choque, para determinar se foi apropriado ou não, o que levou à arritmia e se ainda há bateria suficiente para manter o marca-passo desfibrilador funcionando.
A solução do último mito demonstra como a evolução dos marca-passos implicou a expansão de suas funções e indicações, como no caso dos desfibriladores cardíacos implantáveis e ressincronizadores cardíacos (Figura 3). Estes são marca-passos indicados quando, por um problema no feixe de condução, os ventrículos passam a bater de forma descompassada, o que pode prejudicar a função ventricular[4].
Figura 3. Desenho esquemático dos cabos-eletrodo utilizados na ressincronização cardíaca, habitualmente sentindo o estímulo próprio do átrio direito (RA) e transmitindo, com intervalo programado, para os ventrículos direito (RV) e esquerdo (LV), restaurando a sincronia ventricular.
Fonte: https://www.biotronik.com/pt-br/pacientes/pacientes-e-profissionais-de-saude/terapias/terapia-de-ressincronizacao-cardiaca. Acesso em: 18 de setembro de 2026.
Outro desenvolvimento atual do marca-passo é a posição de implante do eletrodo ventricular cada vez menos aleatória, e sim mais estratégica. Visando restaurar a fisiologia mais próxima ao sistema de condução elétrica ventricular, desenvolveram-se bainhas e eletrodos próprios para o implante próximo ao sistema de condução ventricular (Figura 4). Essa estratégia de implante ventricular é chamada de “marca-passo fisiológico” e vem sendo extensamente estudada para avaliar seu impacto na sobrevida dos pacientes, redução da disfunção ventricular associada a marca-passo e melhora de função nos pacientes com insuficiência cardíaca[5].

Figura 4. Posicionamentos possíveis do eletrodo de estimulação ventricular, incluindo a via de saída do ventrículo direito (RVOT) e o ápice do ventrículo direito (RVA), posições frequentemente associadas a dissincronias ventriculares. À direita, mostram-se pontos estratégicos de posicionamento que podem vir a ser associados a estimulações mais fisiológicas: feixe de His (HBP), septo ventricular esquerdo (LV septum), septo ventricular direito (RV septum), endocárdio do ventrículo esquerdo (LV Endo) e estimulação cardíaca sem cabo-eletrodo (WiCS)[5].
Na Figura 4, é mencionado ainda o marca-passo sem cabo-eletrodo (leadless pacemaker), desenvolvido visando solucionar alguns problemas associados ao implante convencional: pneumotórax, hemotórax, deslocamento dos cabos-eletrodos, oclusão venosa, insuficiência da valva tricúspide e a mais temida: a infecção, que, por vezes, pode cursar com endocardite[4]. Nesse sentido, foi desenvolvida uma cápsula de 26 x 7 mm, implantada pela veia femoral e liberada após se prender passivamente por garras às trabéculas do ventrículo direito.
Inicialmente implantada apenas no ventrículo direito, já foram desenvolvidas técnicas inclusive para o implante em átrio e ventrículo direitos, ampliando as possibilidades de modo de estimulação (Figura 5). Esse desenvolvimento representa uma nova opção, sobretudo para pacientes com histórico de endocardite de cabo-eletrodo ou falha de acesso vascular. Ressalta-se, porém, que o custo ainda é alto comparado com a alternativa do implante epicárdico por toracotomia ou por acesso subxifoide e que não substitui todas as formas de estimulação, possuindo indicação formal restrita. Na diretriz brasileira, a melhor recomendação é IIa em pacientes com fratura de eletrodo ou após extração por infecção, nos pacientes com obstruções venosas críticas[4].

Figura 5. (A) Esquema do implante dos marca-passos leadless em átrio direito e ventrículo direito. (B) Cápsulas dos leadless implantados. Radiografias em PA (C) e perfil (D), evidenciando o posicionamento do implante[6].
Ao longo de 94 anos, o marca-passo deixou de ser um equipamento externo, movido a manivela, para se tornar um dispositivo cada vez menor, mais durável e mais próximo da fisiologia natural do coração. No entanto, para quem depende dele, talvez a maior evolução não esteja nas dimensões do gerador, na duração da bateria ou na posição dos eletrodos. Está na possibilidade de voltar a trabalhar, praticar exercícios e, em alguns casos, até “ressuscitar” de uma arritmia maligna fatal. Neste Dia do Portador de Marca-passo, celebramos não apenas uma extraordinária trajetória tecnológica, mas também a todos aqueles que, graças a essa pequena máquina, deram à vida um novo ritmo.
Referências
- Mulpuru SK, Madhavan M, McLeod CJ, Cha YM, Friedman PA. Cardiac pacemakers: Function, troubleshooting, and management. Part 1 of a 2-Part Series. JACC. 2017;69(2):189-210. doi: 10.1016/j.jacc.2016.10.061.
- Prutchi D, Villamil D. Pioneering rhythm management: A design analysis of the earliest battery-powered implantable pacemakers. PACE. 2026;49(4):371-87. doi: 10.1111/pace.70127.
- Rassi A. Adib Domingos Jatene, 1929-2014. Arq Bras Cardiol. 2015;104(3):179-80. doi: 10.5935/abc.20150022.
- Teixeira RA, Fagundes AA, Baggio Junior JM, de Oliveira JC, Medeiros PTJ, Valdigem BP, et al. Diretriz Brasileira de Dispositivos Cardíacos Eletrônicos Implantáveis – 2023. Arq Bras Cardiol. 2023;120(1):e20220892. doi: 10.36660/abc.20220892.
- Vijayaraman P, Bordachar P, Ellenbogen KA. The continued search for physiological pacing: Where are we now? JACC. 2017;69(25):3099-114. doi: 10.1016/j.jacc.2017.05.005.
- Knops RE, Reddy VY, Ip JE, Doshi R, Exner DV, Defaye P, et al. A dual-chamber leadless pacemaker. NEJM. 2023;388:2360-70. doi: 10.1056/NEJMoa2300080.