É possível dar alta da Unidade de Terapia Intensiva direto para casa após procedimentos cardiovasculares?

Em tempos de pandemia de Covid-19, muito se discute sobre a necessidade de leitos hospitalares, principalmente na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), uma vez que cerca de 10 a 20% dos acometidos necessitam de cuidados intensivos1,2.

No entanto, não é de hoje que a gestão de leitos hospitalares preocupa os profissionais de saúde. Além da demanda crescente por leitos nas UTIs, a falta de leitos em enfermarias atrasa a alta dos pacientes, gerando inúmeros infortúnios. Com isso, há uma proporção crescente de altas hospitalares diretamente para casa (AHDC), ignorando os protocolos tradicionais de transferência para enfermaria antes da alta hospitalar3,4.

Um estudo realizado no Canadá, publicado recentemente no periódico Critical Care Medicine, mostrou um aumento significativo do número de AHDC entre 2013 a 2017, como mostra a Figura 15.


Figura 1. Número de pacientes que receberam AHDC entre 2003 e 20175.

Mas essa prática pode ser aplicada com segurança para os pacientes submetidos a procedimentos cardíacos menores, como implante de marca-passo, angioplastia, entre outros?

Estudo realizado no Brasil com 3.118 pacientes internados em uma Unidade de Terapia Intensiva Coronariana entre 2014 e 2019 constatou que os principais diagnósticos dos pacientes que receberam alta direto para casa foram arritmias cardíacas (24,10%) e pacientes com infarto agudo do miocárdio submetidos a angioplastia (24,90%). Concluiu-se que a gravidade, a taxa de readmissão e o tempo de permanência hospitalar foram menores nos pacientes que receberam alta diretamente para casa. Com isso, os pesquisadores sugeriram que a AHDC pode ser segura para pacientes de baixo risco e em internações de curta duração, entretanto, reafirmaram a necessidade de estudos adicionais sobre o assunto6.

Portanto, novos estudos devem ser realizados a fim de assegurar a segurança e os benefícios dessa prática, mas uma coisa é certa: a AHDC pode melhorar a utilização de recursos de assistência médica, reduzir a morbidade iatrogênica adquirida no hospital, melhorar a satisfação do paciente e reduzir os custos associados à assistência médica3,4.

Referências

1. Conselho Federal de Medicina (CFM). Posição do Conselho Federal de Medicina sobre a pandemia de COVID-19: contexto, análise de medidas e recomendações. Brasília [acesso em 20 mar. 2020]. Disponível em: https://www.anahp.com.br/noticias/noticias-anahp/posicao-do-conselho-federal-de-medicina-sobre-a-pandemia-de-covid%E2%80%9019-contexto-analise-de-medidas-e-recomendacoes/

2. Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB). Preparação de URI para COVID-19: lições de experiências internacionais. São Paulo [acesso em 20 mar. 2020]. Disponível em: https://www.amib.org.br/noticia/nid/preparacao-de-uti-para-covid-19-licoes-de-experiencias-internacionais/

3. Stelfox HT, Soo A, Niven DJ, Fiest KM, Wunsch H, Rowan KM, Bagshaw SM. Assessment of the safety of discharging select patients directly home from the Intensive Care Unit: a multicenter population-based cohort study. JAMA Intern Med. Published online August 20, 2018.

4. Lau VI, Priestap FA, Lam JNH, Ball IM. Factors associated with the increasing rates of discharges directly home from intensive care units—a direct from ICU Sent Home Study. J Intensive Care Med. 2018;33(2):121-127.

5. Lam JNH, Lau VI, Priestap FA, Basmaji J, Ball IM. Patient, family, and physician satisfaction with planning for direct discharge to home from Intensive Care Units: direct from ICU Sent Home Study. J Intensive Care Med. 2020 Jan;35(1):82-90.

6. Bosso CE, Ribeiro PCD, Cícero FAFO, Caetano RD, Cardoso AP, Vanzella LM, Vanderlei LCM. Hospital discharges: from the intensive care unit to home. Critical Care. 2020, 24(Suppl 1):87. doi: 10.1186/s13054-020-2772-3.

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