No Brasil, a aproximação do estudante de medicina à cirurgia cardiovascular (CCV) durante a graduação ocorre de forma variável entre as instituições, nem sempre sendo inserida de maneira estruturada ao longo do percurso formativo. As Diretrizes Curriculares Nacionais do curso de medicina, estabelecidas pela Resolução CNE/CES no 3/2014, orientam uma formação generalista, humanista e centrada nos diferentes níveis de atenção à saúde, com ênfase no Sistema Único de Saúde (SUS)1. Embora esse modelo seja fundamental para a organização da formação médica no país, ele não contempla de forma sistemática a exposição a especialidades de alta complexidade, como a cirurgia cardiovascular, durante o período de graduação.
Esse cenário se relaciona, em parte, à distribuição dos serviços de cirurgia cardiovascular no território nacional. Segundo o Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) e a Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM), os maiores centros habilitados e programas de residência em CCV se concentram nas regiões Sudeste, Sul e Nordeste, com menor densidade relativa em regiões como Norte e Centro-Oeste2,3. Tal assimetria tende a ter impactos diretos no acesso dos acadêmicos à especialidade, sobretudo no caso daqueles vinculados a instituições situadas fora dos grandes polos formadores. Nesses contextos, a vivência em CCV durante a graduação depende de iniciativas individuais ou oportunidades pontuais, o que dificulta a construção progressiva de interesse e compreensão sobre a área.
A ausência de exposição longitudinal à especialidade repercute não apenas no domínio conceitual, mas também na forma como a CCV é percebida pelo estudante. A ausência de contato consistente com a prática tende a posicioná-la como um campo mais distante no percurso formativo, com possíveis repercussões no engajamento acadêmico e na escolha de carreira, em consonância com evidências que associam a exposição precoce a especialidades cirúrgicas ao maior envolvimento científico e a decisões profissionais mais bem fundamentadas4,5.
Nos últimos anos, a ampliação do acesso digital ao conhecimento contribuiu para mitigar parcialmente essas barreiras. A disseminação de conteúdos por meio de plataformas online, webinários e periódicos científicos ampliou a capilaridade da informação em saúde, permitindo que estudantes de diferentes regiões tenham acesso a discussões clínicas, atualizações científicas e materiais didáticos anteriormente restritos a centros específicos6,7. No entanto, apesar de relevante, esse avanço não substitui completamente a vivência prática, que permanece como elemento central na compreensão da dinâmica assistencial e na consolidação do interesse pela especialidade.
Assim, estratégias extracurriculares assumem um papel complementar na formação do acadêmico. Ligas acadêmicas, programas de estágio observacional e eventos científicos são instrumentos relevantes de aproximação com a CCV. Ainda assim, em muitos casos, a efetividade dessas iniciativas depende de condições locais, o que perpetua desigualdades no acesso.
No âmbito da Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular (SBCCV), o Departamento Brasileiro das Ligas Acadêmicas de Cirurgia Cardiovascular (DBLACCV) tem se consolidado como um mecanismo de integração entre estudantes, ligas acadêmicas e serviços especializados, promovendo a articulação de iniciativas em nível nacional. Ao estruturar atividades científicas, facilitar o acesso a estágios observacionais e organizar uma rede de formação complementar, o departamento contribui para reduzir a dependência de fatores geográficos e institucionais, ampliando as possibilidades de inserção do estudante na especialidade ainda durante a graduação.
Referências
- Brasil. Conselho Nacional de Educação. Resolução CNE/CES no 3, de 20 de junho de 2014. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Medicina.
- Brasil. Ministério da Saúde. Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES). Disponível em: http://cnes.datasus.gov.br
- Brasil. Ministério da Educação. Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM). Relatórios de programas credenciados.
- Lewis CE, Klingensmith ME. Issues in general surgery residency training—2012. Ann Surg. 2012;256(4):553–9.
- Scott IM, Matejcek AN, Gowans MC, Wright BJ, Brenneis FR. Choosing a career in surgery: factors that influence Canadian medical students’ interest in pursuing a surgical career. Can J Surg. 2008;51(5):371–7.
- Chick RC, Clifton GT, Peace KM, Propper BW, Hale DF, Alseidi AA, Vreeland TJ. Using technology to maintain the education of residents during the COVID-19 pandemic. J Surg Educ. 2020;77(4):729–32.
- Jeyaraman M, Ramasubramanian S, Kumar S, Jeyaraman N, Selvaraj P, Nallakumarasamy A, et al. Multifaceted role of social media in healthcare: opportunities, challenges, and the need for quality control. Cureus. 2023 May 16;15(5):e39111. doi: 10.7759/cureus.39111. PMID: 37332420; PMCID: PMC10272627.