Transplante de órgãos: da história que mudou a medicina à decisão que muda vidas

Durante grande parte da história da medicina, a falência irreversível de um órgão também representava o limite das possibilidades terapêuticas. Para mudar esse panorama, foi necessário reunir avanços que ocorreram paralelamente na cirurgia, na imunologia e nos cuidados perioperatórios. Um dos grandes marcos dessa trajetória aconteceu em 1954, em Boston, quando Joseph Murray e sua equipe realizaram um transplante renal entre os irmãos gêmeos monozigóticos Ronald e Richard Herrick. Mais do que o sucesso de um único procedimento, aquele caso ajudou a demonstrar que um órgão poderia ser retirado de uma pessoa, implantado em outra e permanecer funcional[1].

Se o rim ajudou a abrir esse caminho, o coração faria a transplantação ultrapassar uma fronteira ainda mais complexa. No final da década de 1950 e início dos anos 1960, diferentes grupos passaram a estudar experimentalmente como transplantar um coração. Na Universidade de Stanford, Norman Shumway e Richard Lower tiveram um papel fundamental nesse processo. Em 1960, publicaram seus experimentos com transplante cardíaco ortotópico em cães, estabelecendo parte importante da base técnica que seria utilizada posteriormente em seres humanos[2]. Em poucos anos, aquilo que parecia uma possibilidade distante havia se transformado em uma questão concreta para diferentes centros: não se discutia mais se seria possível transplantar um coração, mas sim quem conseguiria fazê-lo primeiro.

Essa corrida ganhou força em janeiro de 1964, quando James Hardy e sua equipe, no Mississippi, transplantaram o coração de um chimpanzé para um paciente em condição terminal. O órgão não foi capaz de manter a circulação adequadamente e o paciente faleceu pouco tempo depois[3]. Tratava-se de um xenotransplante, diferente do transplante entre seres humanos que se buscava, mas a experiência evidenciou o quanto aquela fronteira estava próxima. Ao mesmo tempo, Adrian Kantrowitz, em Nova York, e Shumway, em Stanford, acumulavam experiência experimental e se preparavam para a aplicação prática da técnica. A expectativa em relação ao procedimento crescia rapidamente.

Foi então que, em 3 de dezembro de 1967, a resposta veio na Cidade do Cabo, na África do Sul. No Groote Schuur Hospital, Christiaan Barnard e sua equipe realizaram o primeiro transplante cardíaco entre seres humanos, implantando o coração de Denise Darvall em Louis Washkansky, portador de cardiopatia terminal[4]. Washkansky teve uma recuperação inicial, mas faleceu no 18o dia pós-operatório em decorrência de pneumonia, em uma época na qual o delicado equilíbrio entre rejeição e imunossupressão ainda estava longe de ser dominado. Apesar da curta sobrevida, uma barreira havia sido definitivamente rompida. Apenas três dias depois, Kantrowitz realizaria um transplante cardíaco pediátrico em Nova York[5], e, em janeiro de 1968, Stanford também iniciaria sua experiência clínica. Ao final daquele ano, 102 transplantes cardíacos já haviam sido realizados em 52 centros de 17 países[6].

Entre esses países estava o Brasil. E essa talvez seja um dos episódios mais marcantes da história da cirurgia cardiovascular brasileira. No Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP), a equipe do Professor Dr. Euryclides de Jesus Zerbini já realizava trabalhos experimentais na área. Segundo registros históricos publicados no próprio Brazilian Journal of Cardiovascular Surgery, integrantes do grupo do Prof. Zerbini chegaram a propor a realização de um transplante humano ainda em 1964, o que foi considerado prematuro naquele momento. O mais impressionante é que, no ano de 1967, o grupo esteve próximo de realizar o procedimento em duas ocasiões: na primeira, não houve autorização institucional; na segunda, não foi possível obter um doador adequado[6,7]. O Brasil, portanto, estava inserido naquela corrida antes mesmo de o primeiro coração ser transplantado na África do Sul.

Depois da notícia de Barnard, Prof. Zerbini reuniu sua equipe e outros especialistas para preparar o programa. Pouco mais de cinco meses depois, em 26 de maio de 1968, no HCFMUSP, seria realizado o primeiro transplante cardíaco do Brasil e da América Latina e o 17o do mundo[6,7]. João Ferreira da Cunha, conhecido como João Boiadeiro, portador de cardiomiopatia avançada, recebeu um novo coração em uma operação que colocou definitivamente a cirurgia cardiovascular brasileira entre as pioneiras da transplantação mundial. A equipe utilizou perfusão sanguínea normotérmica contínua para preservar o enxerto durante sua preparação. A recuperação inicial foi satisfatória, mas o receptor faleceu no 28o dia de pós-operatório em decorrência de rejeição[6]. Ainda naquele período, outros transplantes seriam realizados pela equipe, e assim o Brasil consolidaria sua participação nessa nova era da cirurgia cardíaca.

A experiência dos anos seguintes mostrou, entretanto, que realizar a operação era apenas uma parte do desafio. Rejeição e infecções associadas à imunossupressão limitavam os resultados, levando muitos centros a reduzir ou interromper seus programas durante a década de 1970. A partir de 1980, a introdução da ciclosporina, medicamento que controla a rejeição dos órgãos, modificaria profundamente esse cenário, contribuindo para a melhoria da sobrevida dos pacientes[6,8]. Com o desenvolvimento progressivo da imunossupressão, da preservação do enxerto, da seleção de doadores e receptores e dos cuidados perioperatórios, o transplante tornou-se uma terapia estabelecida para pacientes selecionados com insuficiência cardíaca avançada[9].

Entretanto, mais de cinco décadas depois do primeiro ato da equipe de Prof. Zerbini, existe uma limitação que nenhuma evolução técnica consegue eliminar: para cada transplante, é necessário que exista um órgão disponível. Os números brasileiros ajudam a dimensionar esse desafio. Segundo o Registro Brasileiro de Transplantes de 2025, foram realizados 427 transplantes cardíacos no país, diante de uma necessidade anual estimada de 1.707 procedimentos. O Brasil registrou 4.335 doadores efetivos, mas a recusa ocorreu em 45% das entrevistas realizadas com familiares de potenciais doadores[10]. São números que mostram como o avanço da transplantação depende não apenas da capacidade dos centros transplantadores, mas também da identificação dos potenciais doadores, da organização do sistema e, especialmente, da efetivação da doação.

É nesse sentido que o Dia Nacional da Doação de Órgãos, celebrado em 27 de setembro, tem ainda mais significado. No Brasil, a retirada de órgãos após a morte depende de autorização familiar, mesmo quando a pessoa manifestou em vida o desejo de ser doadora[11]. Por isso, falar sobre a doação com a própria família continua sendo uma das ações mais importantes para que essa vontade possa, de fato, se transformar em um transplante.

Da experimentação de Shumway e Lower à corrida que culminou no transplante de Barnard, da ousadia de Prof. Zerbini à consolidação dos programas brasileiros e dos primeiros desafios com a rejeição à transplantação moderna, décadas de ciência permitiram que um coração pudesse substituir outro e oferecer uma nova perspectiva a pacientes para os quais as alternativas terapêuticas se tornaram limitadas. Hoje, o desafio não é mais demonstrar que somos capazes de transplantar um coração: é fazer com que, quando alguém precisar dele, também exista a possibilidade de recebê-lo.

Referências

  1. Merrill JP, Murray JE, Harrison JH, Guild WR. Successful homotransplantation of the human kidney between identical twins. JAMA. 1956;160(4):277-82. doi: 10.1001/jama.1956.02960390027008.
  2. Lower RR, Shumway NE. Studies on orthotopic homotransplantation of the canine heart. Surg Forum. 1960;11:18-9. PMID: 13763847.
  3. Hardy JD, Chavez CM, Kurrus FD, Neely WA, Eraslan S, TURNER MD, et al. Heart transplantation in man: developmental studies and report of a case. JAMA. 1964;188(13):1132-40. doi: 10.1001/jama.1964.03060390034008.
  4. Barnard CN. The operation. A human cardiac transplant: an interim report of a successful operation performed at Groote Schuur Hospital, Cape Town. S Afr Med J. 1967;41(48):1271-4. PMID: 4170370.
  5. Kantrowitz A, Haller JD, Joos H, Cerruti MM, Carstensen HE. Transplantation of the heart in an infant and an adult. Am J Cardiol. 1968;22(6):782-90. PMID: 4880223.
  6. Stolf NAG. History of heart transplantation: a hard and glorious journey. Braz J Cardiovasc Surg. 2017;32(5):423-7. doi: 10.21470/1678-9741-2017-0508.
  7. Stolf NAG, Braile DM. Euryclides de Jesus Zerbini: uma biografia. Braz J Cardiovasc Surg. 2012;27(1):137-47. doi: 10.5935/1678-9741.20120020.
  8. Robbins RC, Barlow CW, Oyer PE, Hunt SA, Miller JL, Reitz BA, et al. Thirty years of cardiac transplantation at Stanford University. J Thorac Cardiovasc Surg. 1999;117(5):939-51. doi: 10.1016/S0022-5223(99)70375-2.
  9. Peled Y, Ducharme A, Kittleson M, Bansal N, Stehlik J, Amdani S, et al. International Society for Heart and Lung Transplantation Guidelines for the Evaluation and Care of Cardiac Transplant Candidates—2024. J Heart Lung Transplant. 2024;43(10):1529-628.e54. doi: 10.1016/j.healun.2024.05.010.
  10. Associação Brasileira de Transplante de Órgãos. Registro Brasileiro de Transplantes: RBT 2025. Ano XXXII, n. 4. São Paulo: ABTO; 2026.
  11. Brasil. Ministério da Saúde. Sistema Nacional de Transplantes. Como ser doador de órgãos; 27/9 – Dia Nacional da Doação de Órgãos. Brasília: Ministério da Saúde.
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