Dia do Anestesiologista: quando o coração para, alguém mantém a vida

Na manhã de 16 de outubro de 1846, no anfiteatro cirúrgico do Massachusetts General Hospital, em Boston, um jovem de 17 anos foi submetido à ressecção de um tumor cervical sem sentir nenhuma dor. Ao final do procedimento, o cirurgião John Collins Warren teria dirigido-se à plateia com uma frase que entraria para a história: “Gentlemen, this is no humbug” (“Senhores, isto não é nenhuma farsa”). Quem aplicou o éter foi o dentista William Thomas Green Morton, e a data se consagrou como o marco inicial da anestesiologia moderna, sendo celebrada até hoje como o Dia do Anestesiologista no Brasil e o Dia Mundial da Anestesia[1].

É difícil para nós, que nascemos em uma época em que dispomos da anestesia, dimensionar o que aquele momento significou. Antes dele, a cirurgia era uma experiência de terror compartilhado: pacientes eram amarrados às mesas, embriagados ou hipnotizados para suportar o inimaginável, e os cirurgiões competiam com o relógio, pois velocidade era a única “anestesia” disponível. Naquela manhã de outubro, pela primeira vez diante de testemunhas, a dor foi silenciada de forma deliberada, controlada e reversível. A medicina entrava em uma nova era.

Figura 1. “The First Operation Under Ether”, de 1882, pintura de Robert Hinckley (1853-1941). A obra retrata a primeira demonstração pública bem-sucedida de anestesia com éter em cirurgias, que ocorreu em 16 de outubro de 1846, no Domo do Éter, dentro do Hospital Geral de Massachusetts, em Boston.

 

Porém, o pioneirismo não foi apenas de Morton. Quatro anos antes, em 1842, o médico norte-americano Crawford Williamson Long já havia utilizado éter cirúrgico na remoção de um tumor cervical, mas só publicou sua experiência anos depois, o que fez com que a primeira documentação permanecesse em Boston[2]. Há algo de interessante nessa disputa esquecida pela história: o primeiro homem a operar sem dor era um médico interiorano que atendia sua comunidade com os recursos que tinha. Talvez seja um lembrete de que grandes revoluções nem sempre acontecem nos grandes centros.

Se a anestesia libertou a cirurgia da dor, foi a circulação extracorpórea (CEC) que libertou a cirurgia cardíaca da impossibilidade. Em 1953, quando John Gibbon realizou a primeira operação cardíaca com suporte cardiopulmonar bem-sucedida, tornou-se possível operar um coração parado e vazio, e devolvê-lo batendo ao paciente[3]. Vale imaginar a cena: uma máquina do tamanho de uma sala, com tubos serpenteando pelo centro cirúrgico, e uma equipe inteira segurando a respiração enquanto o coração de um paciente descansava, pela primeira vez, nas mãos de um aparelho.

Esse salto gerou um novo desafio: manter vivo, perfundido, oxigenado e hemodinamicamente estável um paciente cujo coração foi deliberadamente interrompido. Não bastava fazer o paciente “dormir”: era preciso substituir, com precisão, funções que o próprio corpo executava sozinho desde sempre.

Foi nesse cenário que a anestesiologia cardíaca se consolidou como subespecialidade. Ao anestesiologista da cirurgia cardiovascular cabe um repertório que poucas áreas da medicina exigem: monitorização invasiva contínua, manejo de drogas vasoativas e inotrópicas, controle rigoroso de coagulação e transfusão, ecocardiografia transesofágica intraoperatória (que transformou o anestesiologista em um “ecografista do coração” em tempo real) e proteção dos órgãos-alvo vulneráveis, com cérebro e rins em primeiro lugar[3].

Figura 2. Posicionamento típico da equipe durante a cirurgia cardíaca: o anestesiologista na cabeceira, entre o monitor e o campo operatório.

 

Quem já presenciou uma cirurgia cardíaca conhece essa figura. Enquanto o cirurgião mergulha no campo operatório, o anestesiologista permanece na cabeceira, de olho em dezenas de números que mudam a cada segundo: pressões, débito, gases sanguíneos, níveis de anestesia, temperatura, coagulação. É uma vigilância contínua, sem aplausos ou plateia, mas é dela que se depende, em grande parte, para que o paciente abra os olhos, lúcido.

No Brasil, a parceria entre cirurgiões e anestesiologistas tem um capítulo que merece ser contado. Em 2005, completaram-se 50 anos da primeira cirurgia cardíaca com CEC realizada no país, e seu protagonista não foi apenas quem segurou o bisturi. Diante da impossibilidade de importar uma máquina coração-pulmão, Hugo João Felipozzi construiu com sua equipe as primeiras aparelhagens de CEC fabricadas no Brasil e, em 12 de novembro de 1956 (apenas três anos após o feito de Gibbon), realizou a operação pioneira, ao lado do Dr. Zerbini, no Hospital São Paulo[4]. A Sociedade Brasileira de Anestesiologia (SBA), fundada em 1948 no Rio de Janeiro por 33 médicos, completa em 2026 quase oito décadas de organização da especialidade no país[5].

A imagem popular do anestesiologista (aquele que “aplica a anestesia e sai da sala”) contrasta com a prática atual. Na cirurgia cardíaca, são tendências contemporâneas a recuperação acelerada (Enhanced Recovery After Surgery – ERAS) e o fast-track anestésico (ventilação mecânica cada vez mais curta, extubação ainda na sala operatória em casos selecionados, analgesia multimodal com economia de opioides e mobilização precoce).

Os resultados falam por si. Em estudo publicado em 2025, a implementação de um protocolo de ERAS com extubação na mesa operatória em cirurgia cardíaca eletiva reduziu a permanência em unidade de terapia intensiva (40 vs. 56 horas), encurtou a internação hospitalar (9 vs. 11 dias), diminuiu infecções nosocomiais (24% vs. 40%) e reduziu a ocorrência de delirium e disfunção cognitiva pós-operatória (40% vs. 57%), com alta satisfação dos pacientes[6]. Revisões recentes sobre anestesia ultra-fast-track sustentam que a extubação imediata é factível e segura em pacientes adequadamente selecionados, desde que apoiada por seleção dinâmica ao longo do intraoperatório e estrutura institucional preparada[7].

A cirurgia cardiovascular brasileira tem muito a celebrar: Zerbini e o primeiro transplante cardíaco do país, Jatene e a transposição das grandes artérias, a consolidação de uma escola cirúrgica reconhecida internacionalmente. Mas cada um desses marcos teve, a poucos metros do cirurgião, um anestesiologista sustentando a fisiologia de um paciente cujo coração estava, temporariamente, fora de serviço.

Neste 16 de outubro, o Blog do BJCVS parabeniza os anestesiologistas, em especial aqueles que dedicam sua prática à cirurgia cardiovascular. Quando o coração para, alguém mantém a vida. E esse alguém merece ser lembrado.

 

Referências

  1. Ramalho G. Dia do Anestesiologista. Portal Médico – Conselho Federal de Medicina [Internet]. 2012 out 16 [citado 2026 set. 26]. Disponível em: https://portal.cfm.org.br/artigos/dia-do-anestesiologista.
  2. Reis Júnior A. O primeiro a utilizar anestesia em cirurgia não foi um dentista. Foi o médico Crawford Williamson Long. Rev Bras Anestesiol. 2006;56(3):304-24.
  3. Prates PR. Pequena história da cirurgia cardíaca: e tudo aconteceu diante de nossos olhos… Rev Bras Cir Cardiovasc. 1999;14(3):177-84.
  4. Gomes WJ, Saba JCB, Buffolo E. 50 anos de circulação extracorpórea no Brasil: Hugo J. Felipozzi, o pioneiro da circulação extracorpórea no Brasil. Rev Bras Cir Cardiovasc. 2005;20(4):3-8.
  5. Sociedade Brasileira de Anestesiologia. Nossa História – Linha do tempo [Internet]. Rio de Janeiro: SBA [citado 2026 set. 26]. Disponível em: https://www.sbahq.org/estrutural/nossa-historia-linha-do-tempo/.
  6. Werner A, Conrads H, Rosenberger J, Creutzenberg M, Graf B, Foltan M, et al. Effects of implementing an Enhanced Recovery After Cardiac Surgery protocol with on-table extubation on patient outcome and satisfaction—A before–after study. J Clin Med. 2025;14(2):352.
  7. Zhao S, Yao J, Deng H, Wang X, Cui M, Chen M, et al. Ultra-fast-track anesthesia in cardiac surgery: Perioperative outcomes, patient selection, and implementation strategies—a narrative review. Front Cardiovasc Med. 2026;13:1914025.
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