Dia do Professor — Homenagem aos mestres da cirurgia cardiovascular

Arthur D. Botelho e Luis Felipe Miana

Ninguém se torna cirurgião sozinho. Antes que nossas mãos adquiram a firmeza necessária para tocar um coração, outras mãos nos ensinaram o caminho. Houve um professor que despertou nossa curiosidade ainda nos primeiros anos da faculdade, um preceptor que encontrou tempo para explicar aquilo que não compreendíamos e um chefe que, diante de nossa insegurança, teve paciência para esperar que aprendêssemos. Na cirurgia cardiovascular, em que a distância entre um gesto e suas consequências pode ser tão pequena, essa confiança adquire um significado extraordinário. Quem ensina divide conosco muito mais do que seu conhecimento: divide também os anos que dedicou à profissão, as dificuldades que enfrentou e a experiência que adquiriu quando não havia ninguém para lhe mostrar o caminho. E há algo profundamente comovente em perceber que uma pessoa, depois de passar a vida aperfeiçoando suas próprias mãos, encontra alegria em dedicar seus dias a aperfeiçoar as mãos de outra.

Há uma forma muito particular de amor naqueles que gostam de ensinar. Ela se revela na disposição de explicar novamente, na paciência diante das perguntas mais simples e no cuidado com que se corrige um erro sem diminuir quem o cometeu. Está no cirurgião que, mesmo depois de horas em uma operação, permanece ao lado do residente para discutir uma decisão; no professor que celebra a evolução de um aluno com a satisfação de quem reconhece uma conquista própria; e no mestre que já não precisa provar nada a ninguém, mas continua chegando cedo ao hospital porque vê sentido em compartilhar o que sabe. A verdadeira grandeza de um professor aparece também quando o aluno começa a caminhar sem sua ajuda. Afinal, poucos sentimentos devem ser tão bonitos quanto perceber que alguém se tornou melhor porque, em determinado momento de sua vida, tivemos a oportunidade de lhe ensinar alguma coisa.

Ao longo dos anos, descobrimos que nossos professores permanecem conosco de maneiras que dificilmente poderíamos imaginar. Estão presentes na forma como examinamos um paciente, na prudência diante de uma decisão difícil, na delicadeza de uma sutura e até nas palavras que escolhemos para confortar uma família. Às vezes, muitos anos depois, repetimos uma orientação e reconhecemos nela a voz de alguém que já não está ao nosso lado. É assim que o ensino vence uma das características mais inevitáveis da existência humana: nossa passagem pelo tempo. Um cirurgião pode encerrar sua carreira, deixar de frequentar o centro cirúrgico e desaparecer lentamente da memória daqueles que não o conheceram. Mas alguma coisa dele continuará viva nos profissionais que ajudou a formar. E, por meio deles, continuará alcançando pacientes cujos rostos jamais viu e cujos nomes nunca saberá.

Neste Dia do Professor, nossa gratidão pertence a todos os que também fizeram da medicina um compromisso com aqueles que viriam depois. Aos mestres da graduação, aos preceptores, aos chefes de residência e aos colegas que nunca perderam o prazer de ensinar, mesmo quando a rotina lhes oferecia todas as razões para o cansaço. Que saibamos reconhecer, enquanto ainda podemos, a importância daqueles que reservaram parte de suas vidas para construir as nossas. Ao fim de uma longa trajetória, talvez o legado mais precioso de um cirurgião cardiovascular não seja o número de corações que suas mãos conseguiram salvar, mas a certeza de que, muito depois de sua última operação, outros corações continuarão batendo graças àquilo que ele teve a generosidade de ensinar.

Feliz Dia do Professor aos que compreendem que ensinar é, também, uma maneira de continuar cuidando de vidas que jamais conheceremos.

Na cirurgia cardiovascular, ninguém se forma sozinho. Por trás da habilidade técnica de um cirurgião, há anos de estudo, prática supervisionada e decisões construídas ao lado de profissionais mais experientes. No Dia do Professor, celebrar os mestres também é reconhecer o papel dos mentores: aqueles que orientam escolhas, compartilham experiência e ajudam jovens cirurgiões e acadêmicos a encontrar seu caminho em uma das áreas mais complexas da medicina.

O papel do mentor: ensinar, orientar e inspirar

O professor oferece conhecimento estruturado; o mentor, além disso, acompanha o desenvolvimento profissional de uma forma mais próxima. Essa relação ajuda o aprendiz a compreender não apenas como executar uma técnica, mas também as razões por que determinada conduta é escolhida, como reconhecer limites e quando pedir ajuda. Em uma especialidade que exige precisão, trabalho em equipe e capacidade de agir sob pressão, essa orientação pode fazer a diferença na formação do julgamento clínico, da postura ética e da confiança responsável.

Para acadêmicos interessados na cirurgia cardiovascular e cirurgiões no início de sua trajetória, ter um mentor significa contar com alguém que ajude a transformar interesse em objetivos concretos: buscar oportunidades de aprendizado, desenvolver habilidades, interpretar evidências científicas, lidar com dificuldades e planejar os próximos passos. A mentoria não substitui o esforço individual nem a formação formal; oferece direção, feedback e exemplo ao longo do percurso.

Uma história construída por mestres e discípulos

A própria história da cirurgia cardiovascular brasileira mostra a força da transmissão entre gerações. Euryclides de Jesus Zerbini, um dos grandes pioneiros da especialidade no país, teve no cirurgião Alípio Corrêa Netto um mestre e mentor. Mais tarde, Zerbini tornou-se referência para inúmeros profissionais e ajudou a consolidar equipes, conhecimento e inovação na cirurgia cardíaca do Brasil. Sua trajetória mostra que o legado de um professor não se limita aos procedimentos que realiza, pois inclui as pessoas que forma e os serviços que ajuda a construir.

Figura 1 — Dr. Zerbini em sala de aula: ensinando e transmitindo conhecimento às novas gerações.

Entre os discípulos de Zerbini estava Adib Domingos Jatene, que, ainda estudante, participou de procedimentos conduzidos por seu professor e, posteriormente, construiu uma trajetória própria como cirurgião, inventor, educador e liderança científica. Jatene também contribuiu para a história do Brazilian Journal of Cardiovascular Surgery, como um dos idealizadores da revista e seu primeiro editor-chefe. A relação entre esses dois nomes ilustra como o conhecimento recebido pode ser ampliado e transmitido adiante, sem que o discípulo apenas reproduza os passos do mestre.

 

Figura 2 — Mestre e discípulo: Euryclides de Jesus Zerbini e Adib Jatene. Da esquerda para a direita: o professor Zerbini, Aurice Jatene e Adib Jatene, durante uma comemoração no Instituto do Coração de São Paulo, em meados da década de 1980.

O legado não é copiar, mas formar novas gerações

Um bom mentor não determina o futuro do aprendiz; ajuda-o a enxergar possibilidades, reconhecer responsabilidades e desenvolver autonomia. Ensina pelo exemplo, mas também abre espaço para perguntas, incentiva o pensamento crítico e reconhece que a medicina muda continuamente. O objetivo do mentor não é formar cirurgiões idênticos a ele, e sim profissionais capazes de combinar excelência técnica, discernimento, humildade e compromisso com cada paciente.

Figura 3 — O professor forma mais que cirurgiões. Infografia ilustrativa sobre os pilares da formação médica: conhecimento técnico-científico, trabalho em equipe, segurança do paciente, julgamento clínico, ética e humanidade.

 

Neste Dia do Professor, homenagear os mentores da cirurgia cardiovascular é valorizar uma tradição que une conhecimento, dedicação e responsabilidade. Para quem está começando, encontrar um cirurgião disposto a orientar sua trajetória pode tornar o caminho mais claro e o aprendizado mais consistente. Para quem ensina, acompanhar o crescimento de um jovem profissional é participar de algo que ultrapassa a própria carreira: é contribuir para o futuro da especialidade e para o cuidado de pacientes que talvez nunca venha a conhecer.

Referências

1. Academia Nacional de Medicina. Adib Domingos Jatene [Internet] [citado 2026 out. 14]. Disponível em: https://www.anm.org.br/adib-domingos-jatene/.
2. Adib Jatene: 4 de junho de 1929 – 14 de novembro de 2014. Braz J Cardiovasc Surg. 2014;29(4). doi: 10.5935/1678-9741.20140124.
3. Aiello VD, Bosisio IBJ. Adib Domingos Jatene. Cardiol Young. 2002;12(5):479–83. doi: 10.1017/S1047951102000823. Fonte da fotografia da Figura 2.
4. Lima RC, Wanderley Neto J. Euryclides de Jesus Zerbini — 100 anos. Rev Bras Cir Cardiovasc. 2012;27(1):152–4. doi: 10.5935/1678-9741.20120022. Fonte da fotografia da Figura 1.
5. Stolf NAG. Reflections Upon 55 Years of the First Human Heart Transplant in Brazil. Braz J Cardiovasc Surg. 2024;39(2). doi: 10.21470/1678-9741-2023-0208.
Stolf NAG, Braile DM. Euryclides de Jesus Zerbini: uma biografia. Braz J Cardiovasc Surg. 2012;27(1):137–47. doi: 10.5935/1678-9741.20120020.

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