Domingo Braile: o adeus e a contribuição do desbravador dos corações do interior (parte 1)

            Neste domingo, 22 de março de 2020, a cirurgia cardiovascular não só brasileira, mas do mundo, perdeu um grande referencial – trata-se do professor Dr. Domingo Marcolino Braile (Figura 1) – falecido aos 81 anos e o presente texto é o primeiro de uma série em homenagem a este grande homem, contando um pouco de sua trajetória de vida, bem como suas contribuições à especialidade.

Figura 1 – Professor Dr. Domingo Marcolino Braile.

Fonte: Braile Cardio

 

            Domingo Marcolino Braile nasceu em Nova Aliança, interior de São Paulo, no dia 8 de abril de 1938,  filho do médico especialista em medicina da família Lino Braile e de Maria Neviani Braile. Casou-se com Maria Cecilia Braga Braile e é pai de Maria Cecília Patrícia e Maria Christiane Valeria, além de avô de quatro netos: Rafael, Sofia, Giovanni e Luiza (Figura 2). Por sua habilidade com máquinas (era piloto de avião) e grande influência de seu pai, seguiu seus passos ingressando em 1957 na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e entre 1959 a 1962, ano de sua formatura, fez parte da equipe organizadora da oficina experimental do serviço de cirurgia cardíaca do professor Euryclides Zerbini, além de membro da equipe de experimentação de equipamentos e valvas do Departamento de Técnica Cirúrgica e Cirurgia Experimental da FMUSP. Seu interesse definitivo na cirurgia cardíaca deu-se entre 1960 e 1961, enquanto assistente do serviço cirúrgico particular do professor Zerbini (Figura 3).

 

Figura 2 – Professor Domingo junto aos seus netos, da esquerda para a direita da foto: Rafael, Luiza, Sofia e Giovanni.

Fonte: Braile Biomédica

 

Figura 3 – Professor Domingo Braile à esquerda da foto e professor Zerbini à direita.

Fonte: diariodaregiao.com.br

 

            Ao concluir o curso, cumpriu o plano inicial de retornar à São José do Rio Preto, São Paulo, iniciando sua residência médica em cirurgia geral no serviço do Dr. Gilberto Lopes da Silva Filho, entre 1963 e 1965 na Casa de Saúde Santa Helena (atual Hospital Santa Helena). Devido à experiência adquirida com o professor Zerbini, doutor Domingo, ainda residente, fundou o serviço de cirurgia cardíaca de seu hospital-escola e ainda em 1963 realizou a primeira cirurgia cardíaca com auxílio da circulação extracorpórea do interior do Brasil. No ano de 1965, o grande cirurgião criou e chefiou o serviço de cirurgia cardíaca da Santa Casa de Misericórdia de São José do Rio Preto até o ano de 1972. Em 1967, havia liderado a equipe fundadora do Instituto de Moléstias Cardiovasculares (IMC) em São José do Rio Preto, onde exerceu sua atividade de cirurgião cardíaco durante 25 anos.

 

            Suas contribuições continuam em 1968, quando recebeu o convite do Hospital Infante Dom Henrique da Sociedade Portuguesa de Beneficência de São José do Rio Preto para que entrasse em seu corpo clínico e neste hospital criou mais um serviço da especialidade, além do serviço de tratamento intensivo e de residência médica em conjunto ao IMC, quando no ano seguinte foi eleito diretor clínico e assim atuou pelos 17 anos seguintes.

 

            O ano de 1991 foi marcante, com a fundação do Instituto Domingo Braile que, somente de 1991 a 2007, realizou 6.340 operações com circulação extracorpórea, 650 operações sem extracorpórea, além de 5.760 implantes de marca-passo, sob sua orientação e responsabilidade. No mesmo ano, fundou o serviço de cirurgia cardíaca do Hospital de Base de São José do Rio Preto, onde até 2007 foram realizadas 6.400 cirurgias cardíacas. Isso tudo faz, do professor Domingo, um disseminador da cirurgia cardíaca, sobretudo no interior do Estado de São Paulo, contribuindo com vagas de residência para profissionais já formados e outros em atuação através de 21 serviços médicos implantados, sendo em sete deles como chefe do serviço de cirurgia cardíaca e da residência médica, fazendo-o preceptor de centenas de residentes e mais de 30 mil cirurgias cardiovasculares foram feitas pessoalmente ou através de sua orientação.

 

            Seu interesse pela pesquisa, notável também em 1973 quando desprendeu estudo da “proteção miocárdica” que culminou em publicações científicas e padronização técnica, e seu ímpeto em criar e desenvolver técnicas e produtos no âmbito da cirurgia cardíaca, o levaram a fundar a IMC Biomédica no ano de 1977 (atualmente Braile Biomédica) (Figura 4), que através da sua direção deu início à produção de próteses valvares biológicas e enxertos de pericárdio bovino. Incansável, criou um marca-passo externo e um estimulador esofágico para estudo de arritmias em 1985, seguidos por um oxigenador de membrana para o sistema coração-pulmão em 1988, quando também desenvolveu uma técnica de cardiomioplastia como alternativa ao transplante cardíaco e que foi sua tese de livre-docência apresentada em 1994 na Universidade Gama Filho do Rio de Janeiro com o tema Cardiomioplastia Dinâmica 10 Anos: Análise Crítica e Experiência Pessoal. Os materiais para tratamento de patologias da aorta como endopróteses, cateteres, balões, filtros de veia cava e molas para embolização, além de endopróteses para o trato gastrointestinal e sistema de perfusão intraperitoneal, as duas últimas na esfera da oncologia, foram desenvolvidos a partir de 1998.

 

Figura 4 – Instalações da Braile Biomédica em São José do Rio Preto, São Paulo.

Fonte: Braile Biomédica

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