As doenças do coração continuam sendo a principal causa de morte no Brasil. Por essa razão, é necessário contar com estrutura hospitalar adequada e capacidade de resposta rápida. Neste Dia Mundial do Coração, a consulta aos números oficiais nos permite compreender onde a assistência chega com eficiência e onde ainda há deficiências estruturais. Avaliamos os registros de internação hospitalar do Sistema Único de Saúde (SUS) referentes a todo o ano de 2025, analisando tanto a demanda clínica quanto os procedimentos cirúrgicos cardiovasculares, nas cinco regiões do país.

Ao longo de 2025, o SUS registrou 789.106 internações por doenças cardíacas na rede pública, o que equivale a uma taxa de 369,7 atendimentos para cada 100 mil habitantes. Quando observamos o perfil dessas internações, a insuficiência cardíaca (214.131 atendimentos) e o infarto agudo do miocárdio (201.178 atendimentos) aparecem como principais causas da demanda hospitalar, somando sozinhos mais de metade de todos os registros do país. Em seguida, a doença isquêmica aguda respondeu por 129.639 registros e as arritmias, por 89.281.

Em relação aos procedimentos cirúrgicos, após selecionar apenas as cirurgias cardiovasculares e descartar intervenções vasculares periféricas ou exames invasivos, identificamos 39.861 cirurgias cardíacas realizadas pelo SUS em 2025. Isso representa uma taxa nacional de 18,7 procedimentos por 100 mil habitantes. A revascularização do miocárdio foi a cirurgia mais executada no país, somando 23.163 procedimentos (58,1% do total), seguida pelas cirurgias valvares, com 12.236 casos (30,7%), e pela correção de cardiopatias congênitas, com 3.052 intervenções (7,7%).

A análise geográfica mostra disparidades expressivas no volume bruto de produção entre as Unidades da Federação. O estado de São Paulo liderou em números absolutos, com 8.733 cirurgias no ano, seguido por Minas Gerais, com 5.278, e pelo Paraná, com 5.191 procedimentos. Já estados da região Norte, como Rondônia e Roraima, registraram menos de 50 cirurgias cardíacas no ano inteiro, confirmando a histórica concentração de serviços de alta complexidade em determinados centros urbanos.

Quando ajustamos esses números pelo tamanho da população residente de cada localidade, a leitura regional ganha outro contorno. A região Sul apresentou a maior taxa populacional tanto de atendimentos clínicos (515,7 por 100 mil hab.) quanto de cirurgias cardíacas, alcançando 32,1 cirurgias por 100 mil habitantes, valor bem acima da média nacional. O Sudeste apresenta uma taxa cirúrgica de 20,1 por 100 mil habitantes, enquanto o Norte (12,1) e o Nordeste (12,8) registraram as menores taxas do país.

Para avaliar a capacidade de resposta das equipes cirúrgicas, analisamos a relação entre os registros de alta hospitalar com vida e os óbitos nas Autorizações de Internação Hospitalar. Como a unidade do Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SIH/SUS) é o registro do procedimento e não o paciente único, os dados mostram que, de 39.861 procedimentos realizados, 37.039 evoluíram para alta com sucesso, resultando em uma taxa de sobrevivência de 92,9%. Nas revascularizações do miocárdio houve 21.681 altas com vida (93,6%) contra 1.482 óbitos, na cirurgia valvar registraram-se 11.294 altas (92,3%), nas congênitas foram 2.765 altas (90,6%) e na cirurgia da aorta registraram-se 28 altas hospitalares (75,7%).

A mortalidade hospitalar cirúrgica média no Brasil foi de 7,08% em 2025. A variação desse indicador entre as macrorregiões sugere o impacto das diferenças estruturais, do tempo de encaminhamento e da gravidade dos pacientes operados. O Nordeste e o Sudeste apresentaram as menores taxas de mortalidade hospitalar nas cirurgias, com 5,42% e 6,44% respectivamente, enquanto a região Sul registrou 8,17%, a região Norte 9,43% e o Centro-Oeste, 10,17%.

Os registros de 2025 evidenciam que a cirurgia cardiovascular brasileira, por meio do SUS, tem um papel decisivo na recuperação de dezenas de milhares de pacientes, apresentando taxas de sucesso superiores a 92%, mesmo diante de quadros de alta complexidade. Ao mesmo tempo, as assimetrias na distribuição dos procedimentos e nas taxas de mortalidade entre as regiões mostram que o fortalecimento dos centros regionais, o financiamento adequado das cirurgias alta complexidade e a descentralização do acesso continuam sendo os desafios mais urgentes para os próximos anos.
Referências
- Brasil. Ministério da Saúde. Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS). Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS). Microdados de Internação Hospitalar. Brasília: Ministério da Saúde, 2025.
- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Diretoria de Pesquisas. Coordenação de População e Indicadores Sociais. Estimativas da população residente no Brasil e Unidades da Federação. Rio de Janeiro: IBGE, 2025.