Por que falar de cardiopatia congênita?

No Brasil, o mês de junho é considerado o mês de conscientização sobre a cardiopatia congênita.

Cardiopatia congênita é a denominação dada para uma anormalidade na função ou na estrutura cardiocirculatória ao nascimento, mesmo que descoberta muito depois. As cardiopatias são decorrentes de defeitos na embriogênese (desenvolvimento do embrião desde o momento da fertilização) e afetam o desenvolvimento e a sobrevida das crianças acometidas. Elas podem ser divididas didaticamente em cianogênicas − aquelas que produzem uma coloração azulada à pele, por exemplo, a tetralogia de Fallot e a transposição de grandes artérias − e em não cianogênicas, como a comunicação interatrial e a comunicação interventricular.

Sabe-se que há fatores associados a essa condição, como diabetes gestacional, rubéola, influenza e o uso de ácido retinóico durante a gravidez. Com isso, a conscientização acerca desses fatores é fundamental, visto que as cardiopatias podem ser evitadas a partir de mudanças de hábito, trocas medicamentosas e imunização.

A doença cardíaca congênita afeta de 8 a 10 em cada 1.000 nascidos vivos, resultando em aproximadamente 23.057 novos casos no Brasil em 2022. Cerca de uma a cada quatro crianças com cardiopatia congênita necessita de cirurgia ou outro procedimento durante o primeiro ano de vida. Além disso, é esperado que aproximadamente 81% dessas crianças com cardiopatia congênita sobrevivam até pelo menos os 35 anos de idade. Sob esse viés, é imprescindível o diagnóstico precoce, de preferência intraútero, a fim de possibilitar o manejo adequado da doença.

O principal método diagnóstico é o exame de ecocardiografia fetal. A Lei n. 14.598, de 14 de junho de 2023, inclui no protocolo de assistência às gestantes da rede pública de saúde o ecocardiograma fetal no pré-natal das gestantes. Este acontecimento configura um marco no enfrentamento das cardiopatias congênitas e objetiva garantir diagnóstico e tratamento em tempo hábil para os bebês do país.

Figura 1. Método de avaliação intraútero do bebê e as ondas necessárias para sua eficiência.

Além disso, o teste do coraçãozinho, no qual é aferida a oximetria do neonato na extremidade direita superior e em uma extremidade inferior, faz parte dos exames obrigatórios na avaliação do recém-nascido no Brasil. Alterações nesse exame podem sinalizar a possível presença de doenças cardíacas congênitas.

Apesar dessas ferramentas importantes aprovadas pelo governo, as cardiopatias congênitas ainda não fazem parte das doenças de notificação compulsória. Isso configura uma importante deficiência no banco de dados do país disponibilizado por meio do DATASUS, o que leva a uma compreensão insuficiente acerca de sua epidemiologia.

Soma-se a esse insuficiente registro de casos o fato de o diagnóstico ser clínico e necessitar de um ouvido treinado para a detecção de alterações na ausculta cardíaca e de profissionais capacitados para suspeitar diante da sintomatologia. Ademais, ele é confirmado com exames complementares como ecocardiografia, tomografia, ressonância magnética e cateterismo cardíaco.

O tratamento das cardiopatias congênitas envolve uma abordagem multiprofissional. Na abordagem inicial, é fundamental o cuidado do cardiologista pediátrico no manejo da sintomatologia já referida e/ou de complicações importantes, como a crise hipoxêmica. No momento adequado essas crianças devem ser submetidas a correções cirúrgicas e/ou intervencionistas.

As correções cirúrgicas podem ser divididas em operações paliativas e corretivas. As primeiras são procedimentos cuja meta é preparar o paciente para um procedimento corretivo ou, em alguns casos, funciona como permanente pela impossibilidade anatômica ou mesmo funcional de migrar para o estádio de correção. O tratamento corretivo tem o objetivo de recompor a anatomia ou, quando não viável, a restauração funcional.

Estudo feito nos EUA em 2010 demonstrou que mais de 2 milhões de pessoas viviam com cardiopatia congênita no país. Desse total, 1 milhão era composto por crianças e 1,4 por adultos. Essa superioridade no número de adultos com relação às crianças demonstra os avanços da atuação médica nos cuidados com os portadores de doença cardíaca congênita. Além disso, denota a importância do estudo e do aperfeiçoamento dos profissionais para cuidar desses pacientes e de suas necessidades nesse estágio da vida.

Figura 2. Criança em pós-operatório de cirurgia cardiovascular com curativo em formato de coração.
Fonte: cortesia de Gabriel Bittencourt.

Por fim, ressaltamos a importância de políticas públicas para o financiamento adequado de toda a linha de cuidados. Do contrário, continuaremos a conviver com o aumento das filas e de óbitos evitáveis. Para nós, cada coração conta!

Bibliografia

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