No dia 4 de fevereiro, celebra-se o Dia Mundial do Câncer, data voltada à conscientização sobre a doença. O câncer é uma condição que tem impactos não só sobre a saúde física das pessoas, mas também sobre a saúde mental, sem esquecer as questões econômicas envolvidas em seu tratamento, razão pela qual esta data é tão importante.
Muitas vezes o câncer é tratado apenas sob o ponto de vista da medicina, esquecendo-se de fatores importantes como renda, condições de moradia e rede de apoio. Para o triênio 2025-2027, a União Internacional para o Controle do Câncer (UICC) destaca em sua campanha para a data que o câncer em si não define seus portadores. Assim, a abordagem da doença deve sempre levar em conta as particularidades do indivíduo, considerado um ser único e que deve receber tratamento independentemente de sua condição socioeconômica.
Para um atendimento centrado no paciente, de acordo com a UICC, são necessárias medidas como maior participação das pessoas e das comunidades, mudanças no modelo de cuidado e estratégias para proporcionar mais transparência, inclusão e equidade no tratamento.
No Brasil, a data será marcada pelo lançamento da Estimativa 2026-2028: incidência de câncer no Brasil, pelo Instituto Brasileiro de Câncer (INCA).
Embora muitas vezes associemos o câncer a órgãos como pulmão, mama ou próstata, o coração também pode ser acometido pela doença, ainda que de forma muito menos frequente. O câncer cardíaco primário representa uma das formas mais raras de neoplasia, com uma incidência estimada entre 0,001% e 0,3% em estudos de autópsia.
A maioria dos tumores que se desenvolvem no coração é benigna, correspondendo a cerca de 75% a 90% dos casos. Dentre estes, destacam-se:
- Mixoma cardíaco: O tumor benigno mais comum, responsável por aproximadamente 70% dos diagnósticos.
- Outros tipos menos frequentes incluem rabdomiomas, fibromas e lipomas.
Os tumores malignos primários do coração são uma minoria, porém, extremamente agressivos. Cerca de 95% desses casos são sarcomas, sendo os angiossarcomas os mais prevalentes, seguidos por rabdomiossarcomas e leiomiossarcomas. Os 5% restantes são geralmente linfomas primários cardíacos. Epidemiologicamente, esses tumores malignos costumam se manifestar na quarta década de vida e apresentam um prognóstico reservado, muitas vezes com baixa taxa de sobrevida no primeiro ano após o diagnóstico, devido à dificuldade de ressecção cirúrgica completa.
É importante ressaltar que os tumores cardíacos secundários (metastáticos) são significativamente mais comuns que os primários. Estudos indicam que podem ser encontrados em 2,3% a 18,3% das autópsias de pacientes oncológicos. Teoricamente, qualquer neoplasia maligna capaz de metástase pode atingir o coração ou o pericárdio (membrana que reveste o órgão). Os tipos que mais frequentemente se disseminam para o coração incluem:
- Melanoma
- Câncer de pulmão
- Câncer de mama
- Câncer de rim
- Tumores primários do mediastino
Diagnóstico e Sintomas
O diagnóstico de tumores cardíacos representa um desafio clínico, pois os sintomas são frequentemente inespecíficos e de evolução insidiosa. O quadro clínico pode ser confundido com outras doenças cardiovasculares comuns, podendo incluir:
- Sintomas de insuficiência cardíaca (falta de ar, inchaço);
- Arritmias cardíacas;
- Derrame pericárdico;
- Fenômenos embólicos (quando fragmentos do tumor se soltam e viajam pela corrente sanguínea);
- Sintomas constitucionais inespecíficos como febre e perda de peso inexplicada.
A investigação diagnóstica baseia-se fortemente em exames de imagem. O ecocardiograma é frequentemente o exame inicial, complementado pela ressonância magnética cardíaca e tomografia computadorizada para melhor caracterização anatômica. A confirmação definitiva, quando possível, é feita através de análise histológica (biópsia).
A abordagem terapêutica varia drasticamente dependendo da natureza do tumor. Para os tumores cardíacos benignos, o tratamento é geralmente cirúrgico e apresenta excelente prognóstico, muitas vezes curativo.
Já para os tumores malignos primários, o cenário é mais complexo. A estratégia pode envolver uma combinação de cirurgia, quimioterapia e/ou radioterapia. Infelizmente, o tratamento oncológico é muitas vezes limitado e o prognóstico permanece reservado. Nesses casos, a abordagem deve ser multidisciplinar e, acima de tudo, centrada nas necessidades e na qualidade de vida do paciente.
Além do impacto direto dos tumores no coração, a medicina moderna tem voltado seus olhos para a intersecção entre o câncer e a saúde cardiovascular através da Cardio-Oncologia. Esta área dedica-se a prevenir, diagnosticar e tratar os efeitos cardiovasculares relacionados ao câncer e, principalmente, às terapias utilizadas para combatê-lo.
Diretrizes atuais alertam que certos tratamentos quimioterápicos podem causar toxicidade cardíaca, levando à perda da função do coração. Da mesma forma, a radioterapia pode afetar o órgão se este estiver localizado no campo de irradiação, o que é comum em tratamentos de câncer de mama ou pulmão.
Por essa razão, pacientes oncológicos beneficiam-se imensamente de um plano de cuidado integrado que inclua:
- Avaliação inicial de risco cardiovascular;
- Monitorização cardíaca durante o tratamento, quando indicado;
- Controle rigoroso de fatores de risco tradicionais (hipertensão, diabetes, colesterol alto, tabagismo, obesidade);
- Incentivo a hábitos saudáveis como atividade física e sono adequado.
O objetivo final da cardio-oncologia é permitir que o paciente trate o câncer com a máxima segurança possível, preservando sua saúde cardiovascular e garantindo qualidade de vida a longo prazo.
O Dia Mundial do Câncer nos convida a refletir sobre o peso que essa doença exerce sobre a sociedade. Seja diante dos tipos mais comuns de câncer ou de condições extremamente raras como os tumores cardíacos, o imperativo é o mesmo: humanizar o cuidado. Ao direcionar o foco para o paciente, considerando sua história, suas necessidades e seus medos, proporcionamos um atendimento mais digno e atencioso. A evolução da ciência, exemplificada pelo crescimento da cardio-oncologia, aliada a um olhar humano, é o caminho para enfrentar os desafios impostos pelo câncer.
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